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domingo, 17 de agosto de 2008

Palavras para ficar calada

Este mundo, às vezes... dói-me.


Hoje deitei-me ao lado da minha solidão.
O seu corpo perfeito, linha a linha

derramava-se no meu, e eu sentia

nele o pulsar do meu próprio coração.

Moreno, era a forma das pedras e das luas.
Dentro de mim alguma coisa ardia:
o mistério das palavras maduras
ou a brancura de um amor que nos prendia.

Hoje deitei-me ao lado da minha solidão
e longamente bebi os horizontes.
E longamente fiquei até ouvir
o meu sangue jorrar na voz das fontes.


Poesia de Eugénio de Andrade, As Mãos e os Frutos, 1948
Quadro de Picasso, Fernande à la mantille noire, 1905-1906