Eu sei que isto está mau. Eu sei que este país está entregue a pessoas sem escrúpulos, que usam o dinheiro dos meus impostos para beneficiar interesses próprios, para favorecer os amigos, tendo em vista que estes os favoreçam quando estiverem de saída dos cargos que ocupam no poder. Eu sei isso tudo.
Mas, por qualquer razão, talvez até por uma questão de formação, lá vou tentando agir de acordo com as regras estipuladas, pela via correcta, sempre com um sentido de honestidade. Penso que é a melhor das posturas: não querer fazer as coisas por "baixo do pano", não iludir, não "passar a perna".
Fui educada no espírito de Abril. Apesar de ser filha de um marinheiro e de uma costureira que não tinham mais do que a 4ª classe (ou I ciclo, como é designado agora) os meus pais fizeram-me acreditar na liberdade, na honestidade, na luta por um ideal, na perseverança, e sobretudo, na integridade. E eu acreditei - que ingénua - que quem trabalha é recompensado, que quem é honesto alcança os objectivos, que quem age conforme as regras age correctamente, que tentar é melhor que não tentar, que ser coerente dá os seus frutos, que aprender é a melhor das armas neste mundo.
E depois cresci. E cheguei à conclusão que quem vai ao Big Brother é que é reconhecido, que quem não tem talento mas tem cunha é que fica por cima, quem rouba passa na televisão mas quem investiga num laboratório não. Etc, etc. Podia aqui ficar eternamente a dar exemplos. Dou-vos apenas mais um: hoje sairam os resultados dos subsídios atribuídos pela Direcção Geral das Artes a projectos artísticos nas mais diversas áreas. Mais uma vez constato que quem obtém financiamento por parte do Ministério da Cultura é quem tem boas relações no meio artístico. Digo-o com a maior frontalidade. Poderão perguntar se cheguei a ter esperanças que houvesse honestidade neste concurso público, e a resposta é "Sim". Afinal, a esperança faz parte da nossa vida. Todavia, viver em Portugal faz qualquer um perder a esperança. Nem que seja momentânea. E, neste exemplo concreto que refiro, as consequências são graves a vários níveis. Nesta, como noutras áreas, as pessoas que lucram são sempre as mesmas. Por outro lado, para as que ficam de fora, apesar das suas qualidades, esforços, trabalho árduo e coerência, o único sentimento que fica é a desilusão... e a vontade de emigrar.
Nota de rodapé: É claro que se baixarmos os braços serão ainda menos os que lutam. E por uma questão de integridade não o faço. A luta continua. Com raiva. Mas continua.
“Quando descobrimos aquilo de que somos feitos e a maneira como somos construídos, descobrimos um processo incessante de construção e destruição e apercebemo-nos de que a vida está à mercê desse processo interminável. Tal como os castelos de areia das praias da nossa infância, a vida pode ser levada pela maré.” António Damásio, O Sentimento de Si (1999)
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terça-feira, 22 de abril de 2008
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