Hoje vi uma parangona a passar em rodapé, num noticiário da Sic Notícias, que dizia, a propósito desta edição de "Os dias da Música", no CCB:
"Crianças dançam ao som de música clássica".
Qual é o espanto, senhores jornalistas?
As crianças dançam aquilo que ouvem. A sua sensibilidade é muito superior à dos adultos, porque ainda não passaram pela formatação social, ainda não têm preconceitos em relação a quase nada (talvez só não gostem de sopa...)
É muito mais simples fazer uma criança vibrar com a música dita clássica do que um adulto. É muito natural que ela se sinta bem a ouvir este tipo de música.
Onde é que está escrito que ela tem que gostar de música "tchi-pum-tchi-pum"?
Está demonstrado que quanto mais alguém ouvir uma determinada linguagem musical mais sente afinidades com ela, mais gosta, ao mesmo tempo que potencia a incapacidade de gostar de outro tipo de músicas. Por isso, quanto mais cedo for feito o contacto com a música clássica, de forma sistemática, mais entusiasmo a criança vai sentir quando a escutar.
Defendo este ponto de vista, sem cair no exagero de dizer que é apenas o meio ambiente o grande responsável pela formação do indivíduo. Defendo que os comportamentos resultam da influência de várias factores: do meio ambiente, sim, mas também das qualidades intrínsecas do indivíduo (o legado "biológico"), e dos seus próprios comportamentos, que são geradores e modificadores de outros comportamentos futuros.
Por isso, quanto mais música clássica seja dada a ouvir a crianças ou a adultos, mais possibilidades há destes alargarem os seus horizontes musicais, e de passarem a gostar de outras músicas que não aquelas que a indústria discográfica lhes enfia pelos ouvidos dentro. E como um comportamento influencia outro comportamento, se uma criança ouvir e gostar, vai tomar a iniciativa de, numa próxima oportunidade, pedir aquele tipo de música.
Conversas de música e da psicologia da música, só porque um jornalista qualquer não sabia que as crianças dançam ao som da música clássica.
Próxima parangona: "Jornalistas da Sic aprendem a ler"...
(Estava a brincar...)
“Quando descobrimos aquilo de que somos feitos e a maneira como somos construídos, descobrimos um processo incessante de construção e destruição e apercebemo-nos de que a vida está à mercê desse processo interminável. Tal como os castelos de areia das praias da nossa infância, a vida pode ser levada pela maré.” António Damásio, O Sentimento de Si (1999)
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domingo, 20 de abril de 2008
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