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quinta-feira, 11 de março de 2010

Mar







Eram de longe.
Do mar traziam
o que é do mar: doçura
e ardor nos olhos fatigados.

Eugénio de Andrade







imagem criada em computador,
de autoria de Artur Rosa

domingo, 13 de dezembro de 2009

Hoje o meu pai fez anos

74 anos. E eu senti-me como se o estivesse a perder devagarinho...
às vezes parece-me que tudo se está a ir embora , muuuuito suavemente... para eu não perceber...
Mas hoje percebi...
Vivemos tudo agora, hoje-amanha-e-depois...
Porque também em breve o hoje se acaba, o amanha, não vem, e já não existe depois...
Como gostava de parar esta torrente do tempo...
Como gostava de reter apenas que andamos vivos e felizes...
Mas há sempre uma nuvem a pairar por cima de nós, como que a lembrar-nos "um dia tu também acabarás"...

sexta-feira, 12 de junho de 2009

O tempo, esse fiel companheiro de todos os dias


A 5 de Junho, na sexta-feira passada, se a minha mãe fosse viva teria feito 70 anos.
Nesse mesmo dia soube da morte da mãe de uma amiga.
Fiquei muito perturbada, porque, mais uma vez, senti aquele arrepio gelado que esporadicamente sentimos, quando nos ocorre que andamos neste mundo ao sabor da maré. De uma qualquer maré que se pode transformar em segundos, quando de um segundo apenas precisamos para que tudo mude na nossa vida.
Quando se perde alguém muito próximo fica-se vazio por dentro durante muito tempo, um tempo que nos parece não ter fim.
Mas como o tempo nos acompanha todos os dias - às vezes parece ser infinito, outras vezes parece mesmo que até nos falta.. mas ele lá anda, sempre colado a nós, como uma sombra - sem que se dê conta, suavemente, a dor vai ficando mais ténue...
E quando já passou algum tempo já começámos a respirar outra vez, devagarinho. A conseguir ver as nuvens, a conseguir dar um passo. Lá nos equilibramos novamente. Lá se prossegue a vida, um pouco confusos, como se tivéssemos aterrado na lua, e até os lugares mais familiares nos parecessem estranhos....
Mas o tempo lá está... Fiel ao seu não-parar.
Sempre a dar-nos mais espaço.
E a cada dia um novo passo.
Por isso, e porque eu sei que este sentimento não me é reservado só a mim - antes fosse! - lá vamos avançando nos meses e nos anos, pessoas frágeis, mas mais fortes, mais firmes nos passos. Nesse equilíbrio - tantas vezes precário - que nos mantém à tona da vida.

É por isso que é tão importante andarmos de mãos dadas.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Crónica sobre a Igreja, a Educação Sexual e a irmã Lúcia

A actualidade está marcada por várias notícias mais ou menos bombásticas. Ele é a professora de Espinho que falou de sexo em tons menos próprios numa aula - tema logo aproveitado pela extrema direita para enfernizar a cabeça de toda a gente com a necessidade de retirar a disciplina de Educação Sexual das escolas. Para o CDS é assim: não se fala de sexo e pronto! Ele vai acontecendo à vontade do freguês, é isso? Ou... fazem como o Morgado, que ficou capado? Falar é que não. Ponto.
Depois foi o escândalo que rebentou na Irlanda, com um relatório que põe a nu a podridão das instituições católicas irlandesas, que durante anos a fio, foram palco de sucessivos actos de abusos sexuais sobre os menores das instituições.... Terei ouvido bem? Instituições católicas?
Não surpreende. Com tanta repressão, as pulsões sexuais que todo o ser humano tem e que já foram biologicamente (e amplamente) estudadas, tinham de ser canalizadas para algum lado.
Da pior maneira, como sempre. Cada país tem o seu caso "Casa Pia".
Por fim, entre outras notícias que por aí abundam, ouve-se falar no processo acelerado de beatificação da irmã Lúcia... mas antes... ainda tem de ver mais umas "graças", terei ouvido bem? Dei por mim a pensar que este modelo de sociedade que temos empurra as pessoas cada vez mais para situações limite, de desespero. Desemprego, alcool, e ... é fácil cair na tentação de se julgar a salvo por se ir à igreja, por se dar uma contribuiçãozinha para o padre, mas, quando vamos a ver, quando vamos cavar o que está escondido por baixo de todo este ciclo, descobrem-se todas as feridas abertas, toda a podridão não diria do Homem, mas da igreja, que:
1-não está a favor - tal como o CDS - que haja Educação Sexual nas escolas; logo, predispõe os jovens para uma vivência da sexualidade sem orientação, desgarrada, de qualquer maneira, num obscurantismo que faz lembrar outros tempos;
2-é uma igreja cujo lema é "faz o que eu digo, não faças o que eu faço". Que tenha vergonha e peça desculpas pelos horrores e traumas causados a tantas crianças;
3-é uma igreja que tem necessidade de se afirmar, de se manifestar ideologicamente, sabendo que não o faz inocentemente; sabendo que aglutina opiniões das pessoas mais fragilizadas, mais vulneráveis;
4-é uma igreja que não contribui para a emancipação do Homem. Pelo contrário, deste espera apenas que seja submisso à palavra de Deus, ignorando que há neste mundo quem ande a brincar a fazer de Deus, subjugando milhões de pessoas (trabalhadoras). Mas a essas nada diz... Pois as ofertas são chorudas e não devemos "maçar" quem nos financia....
A Igreja sempre foi política. Sempre se imiscuiu nas escolhas dos homens, sempre fez pressões para que certas coisas acontecessem de determinada maneira e outras não.

Pergunta final, (nem sei se alguém conseguiu chegar até aqui):
- Vamos ter mais notícias bombásticas nos próximos tempos, certo? Que envolvam santos, sexo, professores e sei lá mais o quê... Tudo vai servir para desviar as atenções do principal?
Será que alguém se vai preocupar em saber os programas dos vários partidos ao Parlamento Europeu?
Com tanto foguete lá em cima, é capaz de não se vêr a procissão cá em baixo.
E com esta me calo, que hoje já estou a precisar de dormir.

Ah. Quanto à irmã Lúcia, pode ser que ela faça o milagre de convencer o Senado nos EUA a dar o dinheiro necessário ao Obama para que se possa finalmente fechar a prisão de alta segurança dos EUA em Guantanamo. Ela que faça a "graça" de acabar com as torturas, a injutiça, as violações dos Direitos Humanos...
Aí sim. Isso é que valia a pena beatificar.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

A Cantora Careca

No último post divulguei o concerto do Patxi Andión, na Guarda, logo, toda a gente ficou a pensar que eu iria vê-lo...
Só que desta vez preferi o teatro. No mesmo dia (sábado passado) estreou no Teatro Ribeiro da Conceição, em Lamego, uma produção d' "A Cantora Careca", de Ionesco, pela mão da companhia de teatro "Urze", sediada em Vila Real.
Apesar do concerto do Patxi Andión ser uma tentação, e como ainda não consigo estar em dois lugares ao mesmo tempo (às vezes dava mesmo jeito ), por razões profissionais acabei mesmo por ir a Lamego, dada a minha participação na música composta pelo Paulo Vaz de Carvalho, excelente guitarrista e compositor.
Como se esperava, foi uma peça... absurda. Muito bem interpretada. E feita de absurdos que, idealizados nos anos 50 do século XX, são ainda tão actuais, nos anos 00... do século seguinte.
Em vários momentos lembrei-me de figurinhas absurdas da nosso panorama político.
Absurdas. Que dizem coisas absurdas. Ocorre-vos algum nome, assim de repente? É vital que nos lembremos de quão absurdas e ridículas são algumas figurinhas...

sábado, 4 de abril de 2009

De Regresso...

Nascer de ti


Queria esquecer quem fui

Apagar todas as pegadas

Desprezar todos os nomes

Queria viver sem memórias

E nascer na tua boca

Sempre que me pronunciasses

Queria renascer como Vénus

Na concha das tuas mãos

Nos teus lábios brotar

Toda a minha alma

Repleta de ti...

poesia de Madalena Palma
para quem se achar digno de a entender...

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Já repararam naquele selo dourado aqui ao lado, que diz "Blogue de Ouro"? - ou - Pensamentos que me atravessam o espírito

A Maria atribui-me este selo. É giro, não é?
Obrigada Maria (do Cheiro da Ilha).
Segundo me parece este selo só é atribuído a mulheres.
(Deixaste-me num grande sarilho, Maria.)
Eu não consigo nomear seis outras mulheres na blogosfera.
Por isso, acho que vou só agradecer, mesmo, e falar sobre algo que verdadeiramente me está a preocupar, neste momento, como a qualquer português:
Será que a nossa candidatura conjunta com Espanha para organizar o Mundial de 2018 vai ganhar?...(ironia)
O que é que interessa que fechem fábricas que enviam para o desemprego centenas de pessoas, quase todos os dias, em Portugal;
que é que interessa se aquele senhor, um tal de Armando Vara, ou lá como ele se chama, foi promovido pela CGD depois de já ter sido contratado pelo BPP, ou BCP, o que me leva a perguntar "será que percebi bem?" e "alguém me explica esta história?";
o que é que interessa que Portugal seja um dos países da Europa onde há maior índice de analfabetização, quando nos damos ao luxo de fechar escolas, perseguir professores;
e etc,
e etc,
e etc,...
O que interessa é que o Mundial venha para Portugal, e, vá lá, Espanha também, "qu'as espanholas até são giras, e a minha mulher fica em casa com os miúdos enquanto eu vou ali ver os jogos ao café, e beber umas minis c'os meus amigos"...

...

Haja pachorra para ser português!

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Assim diz Sophia



"Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo

Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa"

sábado, 7 de junho de 2008

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Dia vivido

Hoje de manhã fiz-me à estrada e viajei. Estava a chover um bocadinho, mas soube-me bem.
Fui parar a uma terra portuguesa, com certeza, onde se diz que terá aparecido uma senhora a umas quantas pessoas. Eu não vi nada. E passei-lhe ao lado, mais para cima, só que não cheguei ao Castelo. Cheguei apenas a um lugar onde sorrisos amigos me aguardavam, onde ouvi vozes agradáveis, onde as rosas aguardavam, com o seu perfume, o momento da minha chegada para me cumprimentarem. "Olá, bem-vinda", diziam elas, caladas. E as outras flores também acenavam. Até as andorinhas esperavam pacientemente a sua vez, para me dizerem olá, pousadas por ali, tão perto do meu olhar.
Foi um dia tranquilo. Foi um dia vivido (e não sobrevivido).
Foi um dia daqueles que apetece partilhar.
E repetir.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Recordar Pablo Neruda*



Não te quero senão porque te quero,
e de querer-te a não te querer chego,
e de esperar-te quando não te espero,
passa o meu coração do frio ao fogo.
Quero-te só porque a ti te quero,
Odeio-te sem fim e odiando te rogo,
e a medida do meu amor viajante,
é não te ver e amar-te,
como um cego.

Tal vez consumirá a luz de Janeiro,
seu raio cruel meu coração inteiro,
roubando-me a chave do sossego,
nesta história só eu me morro,
e morrerei de amor porque te quero,
porque te quero amor,
a sangue e fogo.

*dedicado ao Pocotoio

sábado, 17 de maio de 2008

As pessoas...

Hoje de manhã houve 13 pessoas que não me responderam depois de eu lhes ter dito "Bom Dia".
Outras 4 olharam para mim e quando viram o que tinha nas mãos mudaram de direcção.
Houve uma que me disse para ir trabalhar.
E uma grande porcentagem respondeu "Não quero nada disso".
Houve outras, em menor quantidade, é certo, que foram correctas, responderam com educação, e, imagine-se, até com um sorriso.
Algumas compraram o que trazia para vender, juntamente com mais cinco camaradas.
Outras não compraram, mas, pelo menos, não foram insultuosas.
Quando desempenho uma simples função dentro do partido a que pertenço, faço-o com o maior sentido de missão. E já não é a primeira, nem segunda vez que vou para o centro da cidade onde resido vender o jornal "Avante!". Porém, de todas as vezes que o faço, sinto que fico a conhecer melhor este nosso mundo, habitado por todo o tipo de pessoas.
Mas algumas pessoas são, efectivamente, caricaturas de seres humanos. Tal é a podridão em que mergulharam. Tal o medo do cacique (porque no local onde resido há uma estranha tradição de obedecer ao senhor da terra).
Vivo, como já calcularam, numa cidade de direita pura e dura. Nesta cidade não é fácil levar para a frente uma luta, por mais justa que seja. Por mais consensual que seja.
Mas faz-me /faz-nos bem contactarmos com este tipo de pessoas, este tipo de cidades, este tipo de mentalidades.
Só nos faz ficar mais motivados para a luta. Só percebemos ainda com maior clareza, se ela faltasse, que há muito a fazer para defender os ideais de Abril. A nossa liberdade, pessoal e colectiva. A nossa democracia, sem "senhores" a pensar, ou a votar por nós.
Nesta cidade é um desafio permanente ser-se comunista. Todos os dias sou posta à prova. "Até onde és capaz de aguentar?" São os colegas de trabalho que boicotam as nossas pequenas, mas certeiras actividades. São as múltiplas lutas que precisamos de travar (e são tão poucas as mãos para trabalhar...). São estas pessoas que encontramos, com quem nos cruzamos, que nos olham, que nos julgam, e que já sabem tudo sobre nós e sobre o comunismo...
Mas há sempre forças, porque não estou só nesta batalha. Há sempre energia, porque sei que defendo o que é certo.
Há sempre coragem, porque se eu não a tiver, quem mudará o mundo?
Por isso, para a próxima lá estarei outra vez no Rossio.
"Bom dia. Quer comprar o jornal Avante?"

sábado, 3 de maio de 2008

Fim-de-Semana

Aqui está ele: O FIM DE SEMANA!
ufa. Preciso mesmo de descansar...
Esta semana estive envolvida em muitas actividades, e já começava a dar sinais de excesso de trabalho. Dores de cabeça contínuas... insónias... dores de cabeça... sono... etc. Nada de original, eu sei, uma vez que não sou a única professora "à porrada" com o calendário escolar... O que é certo é que já estamos na recta final de mais um ano lectivo, e... tenho a sensação que cada vez o tempo anda mais rápido!...

Ainda sou do tempo em que tínhamos três meses de férias. Normalmente, quando chegava a meados de Agosto já estava ansiosa que as aulas recomeçassem. Nessa altura só começavam em Outubro.
Agora... a meados de Agosto começo a entrar em depressão, porque ainda não descansei o suficiente e o novo ano lectivo já está à porta.. A única alegria é saber que em Setembro tenho a Festa do Avante à minha espera...Eh, eh...

domingo, 27 de abril de 2008

Vozes de Abril

Vi, ouvi e gravei, com muita satisfação, o espectáculo "Vozes de Abril", no coliseu, que passou na RTP 1 no dia 25, à noite. Tratou-se de um espectáculo de grande nível, pela força da presença de certos artistas que, de forma ímpar interpretaram canções de que gosto muito, acompanhadas por poemas inesquecíveis. Mas... quando a esmola é grande o santo desconfia. E, bem me queria parecer que um espectáculo destes nesta altura da vida dos portugueses, e nesta altura da governação socialista, levava água no bico.
Senão vejamos: soube de fonte segura (pela Maria, que esteve lá no dia da gravação) que terá havido uma palavra de ordem (mais concretamente uma dedicatória a todos os professores) que não foi emitida. Cortaram uma frase... Pode acontecer...
Depois, a última quadra do "Somos Livres", aquela que diz: "Somos um povo que cerra fileiras/parte à conquista do pão e da paz/somos livres, somos livres/não voltaremos atrás" foi eliminada do arranjo, interpretado, naquele caso, pela Helena Vieira, que certamente terá cantado o que lhe puseram à frente. Também pode acontecer...
Entretanto cortaram uma canção ao Paxti Andión, que era dedicada ao Federico Garcia Lorca... Isto... também pode acontecer...
Depois, os planos das camaras, junto do público. Ora focavam o António Costa, ora o (Arghh..) Fernando Rosas. E ainda a Helena Roseta, a Ana Drago, a Ana Gomes, o Almeida Santos, e muitas outras caras conhecidas do PS e do BE. Vi poucas do PSD. Nenhuma do PCP. Puro Acaso? Não creio. Só uma vez consegui ver, muito de raspão, o António Filipe, do PCP. Mas acredito que deveriam estar lá muuuuuiitos comunistas. Já são coincidências a mais...
Porquê então isto?
Talvez a resposta esteja no segredo dos deuses, no gabinete de Sócrates, ou no departamento de marketing do governo. Pareceu-me, francamente, que tudo isto não passou duma operação de charme, com objectivos bem claros de sustentar a ideia da "viragem à esquerda" deste governo. Querendo com isto, obviamente, travar o caminho ao PCP, que nos últimos tempos tem aparecido "demasiadas vezes" (na concepção de Sócrates), porque tem sido quem mais tem estado ao lado das populações, havendo até, pela primeira vez desde há muito tempo, uma clara manifestação de apoio ao PCP por parte de várias classes profissionais. Pareceu-me que houve aqui uma tentativa de "capturar" o eleitorado "flutuante".
Foi esta ideia sórdida que me atravessou o espírito, enquanto assistia a um espectáculo fora de série. Mas todo ele pensado para não dar relevo ao papel do PCP na revolução de Abril. Até a Maria Barroso lá puseram, a servir de ornamento.
Porém, a verdade é uma só...

Por mais que filmassem os socialistas na assistência, eram obrigados a filmar os muitos (felizmente) comunistas que pelo palco passaram, os vivos e os mortos.
Do Adriano à Luísa Basto, do Barata Moura ao Lopes-Graça, do Ary dos Santos ao Samuel, e muitos, muitos outros, os nossos artistas, artistas e comunistas, estiveram presentes, e isso, definitivamente, não conseguiram ocultar. Se ocultassem não haveria programa. Ponto Final.


Não quis com este post retirar qualquer valor ao que se passou no coliseu. Creio que foi um momento único, que trouxe boas recordações a uns e muita emoção a outros, mas este meu lado céptico não me deixa descansar. Quem me dera estar enganada, e que tudo não passe da minha fértil imaginação...

Bom Fim de Semana.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

100ª mensagem

Quis o destino que este blogue, tendo tido o seu arranque a 18 de Janeiro de 2008, atingisse hoje, 24 de Abril, a centésima mensagem.
Já escrevi 100 mensagens.
Será que vou ter motivos para outras 100?
A julgar pelas notícias, vou, certamente.

Então, não é que um tal de Cunha Vaz, que é Director dos Serviços de Oftalmologia dos HUC, vem dizer para a televisão que os serviços médicos, mais concretamente cirurgias, realizados em Cuba a centenas de portugueses, são "fraudulentos" e "não têm valor científico"? Uma avaliação fundamentada em quê? Nos seus preconceitos a respeito deste país? Um país que ele considera "atrasado", com falta de meios, e ao qual recomenda que só se vá "para cumprimentar o Fidel Castro"? Está tudo dito.
Quem não concorda é só... o resto do mundo (excluindo os EUA, claro). A julgar pelas listas que não param de aumentar de pessoas que querem ir a Cuba tratar da sua saúde, calculamos que em breve este senhor Cunha Vaz tenha que se mudar para Miami. Pelo menos, lá, estará bem acompanhado.
Também me parece que, por cá, passamos bem sem ele. Que o digam as pessoas de Vila Real de Santo António, Alandroal, etc.
E por falar em Vila Real de Santo António, envio daqui um breve aplauso às palavras do autarca Luís Gomes, que, com uma só cajadada mata dois coelhos, relativamente a este assunto, afirmando: «Desconheço algum hospital público em Portugal com as mesmas condições que vi em Cuba», e assegura que não se trata de mera propaganda internacional, uma vez que «aquelas são as condições normais com que os cubanos são tratados» (Fonte: IOL Portugal Diário). Para um autarca do PSD até nem está mal. Quanto ao senhor Cunha Vaz, desejo-lhe umas boas cataratas e uma lista de espera de 20 anos, só para ele.



Nota de rodapé: Boas comemorações desta linda madrugada, deste 25 de Abril em flor. Eu, por cá, já tenho um grande jantar, hoje, e um grande almoço, amanhã.

domingo, 20 de abril de 2008

A Música Clássica e as Crianças

Hoje vi uma parangona a passar em rodapé, num noticiário da Sic Notícias, que dizia, a propósito desta edição de "Os dias da Música", no CCB:
"Crianças dançam ao som de música clássica".
Qual é o espanto, senhores jornalistas?
As crianças dançam aquilo que ouvem. A sua sensibilidade é muito superior à dos adultos, porque ainda não passaram pela formatação social, ainda não têm preconceitos em relação a quase nada (talvez só não gostem de sopa...)
É muito mais simples fazer uma criança vibrar com a música dita clássica do que um adulto. É muito natural que ela se sinta bem a ouvir este tipo de música.
Onde é que está escrito que ela tem que gostar de música "tchi-pum-tchi-pum"?
Está demonstrado que quanto mais alguém ouvir uma determinada linguagem musical mais sente afinidades com ela, mais gosta, ao mesmo tempo que potencia a incapacidade de gostar de outro tipo de músicas. Por isso, quanto mais cedo for feito o contacto com a música clássica, de forma sistemática, mais entusiasmo a criança vai sentir quando a escutar.
Defendo este ponto de vista, sem cair no exagero de dizer que é apenas o meio ambiente o grande responsável pela formação do indivíduo. Defendo que os comportamentos resultam da influência de várias factores: do meio ambiente, sim, mas também das qualidades intrínsecas do indivíduo (o legado "biológico"), e dos seus próprios comportamentos, que são geradores e modificadores de outros comportamentos futuros.
Por isso, quanto mais música clássica seja dada a ouvir a crianças ou a adultos, mais possibilidades há destes alargarem os seus horizontes musicais, e de passarem a gostar de outras músicas que não aquelas que a indústria discográfica lhes enfia pelos ouvidos dentro. E como um comportamento influencia outro comportamento, se uma criança ouvir e gostar, vai tomar a iniciativa de, numa próxima oportunidade, pedir aquele tipo de música.
Conversas de música e da psicologia da música, só porque um jornalista qualquer não sabia que as crianças dançam ao som da música clássica.
Próxima parangona: "Jornalistas da Sic aprendem a ler"...
(Estava a brincar...)

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Abril Sempre



Lido algures na blogosfera:

"Que é para si a Liberdade, professor?"
"É teres a Liberdade de me fazeres a pergunta"

Aproxima-se o 25 de Abril e o meu entusiasmo começa a aumentar.
Dia 24 vou dar aulas com um cravo vermelho ao peito, ai vou, vou!
Entretanto tenho uns alunos a preparar um concerto muito interessante, com canções raramente feitas na esfera da música erudita. Algumas são do Zeca Afonso, outras do Adriano Correia de Oliveira, outras de Lopes-Graça.
E mais não digo.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

18 meses

Este post não vai ser facilmente compreendido por todos. Por isso peço desde já as minhas desculpas. Mas é mais forte que eu. Hoje não posso deixar de dizer que estou feliz, porque nos últimos 18 meses tenho tido muitas alegrias, e tenho ultrapassado várias etapas que me tem demonstrado, dia após dia, que as muitas certezas que se possuem quando temos 18 anos podem ser todas substituídas. Uma por uma.
E outras experiências nos fazem mudar. E 18 meses podem dar o seu contributo significativo para uma mudança profunda. Bem, para uma mudança profunda até alguns segundos bastam... Mas a vida é feita disso mesmo. E António Damásio afirma-o de forma muito poética no título deste meu humilde blogue. A vida está à mercê de um processo interminável de construção e destruição (de certezas, sentimentos?)

E Pronto. Lá estou eu a tender para a lamechice...

quinta-feira, 27 de março de 2008

"...porque vivi e quero contar"*

Carta a uma irmã:

Há muito que não te escrevo. Não sei porquê. Mas de cada vez que começo desisto depois da primeira frase. Penso sempre se me irás compreender ou não.
Há muita coisa que deixou de fazer sentido na minha vida. Cresci.
Mas muitas outras coisas são agora mais claras, e começo agora a entender um pouco melhor o mundo à minha volta.
Há uma realidade à minha volta que não me deixa sossegar.
Não consigo passar indiferente por esta vida sem fazer algo que está ao alcance das minhas mãos: lutar. Lutar por um mundo bom, justo, belo. Onde todos se possam sentir bem.
Lutar é um pouco como amar.
Depois de se amar a primeira vez já não somos as mesmas pessoas, e já nada é igual.
Por isso, agora já não posso ficar calada, depois de ter visto o que outros lutaram, depois de ter visto o que outros sofreram. Depois de ver nos seus rostos a face dos homens que não morrem.
Agora já nada é igual.
Transcrevo-te o início de um livro que me ofereceram ontem.
Começa assim:

"Não, o 25 de Abril de 1974 não me apanhou como à grande maioria dos portugueses. Não foi a rádio surpreendentemente transformada em Rádio Liberdade, depois de ter sido Grândola e pontapé de saída;(...)
Na manhã do 25 de Abril de 1974 acordei na cela 44 de Caxias-Norte. Comecei nesse acordar mais um dia de prisão, naquela fase em que parece que nos puseram de salmoura, preparando-nos para interrogatórios, torturas, grandes e duras provas."


Já nada é igual, sabes?

Mana


*Livro do autor Sérgio Ribeiro
1ª Ed., Agosto 1983, Prelo Editora/Editorial Estampa

sexta-feira, 21 de março de 2008

A professora, a aluna e o telemóvel

Hoje houve várias pessoas que me enviaram por email um video que revela alguns dos mais graves problemas que neste momento se passam no ensino, em Portugal. No video, filmado por um telemóvel em plena sala de aula no Carolina Michaelis, no Porto, vê-se uma professora a retirar um telemóvel a uma aluna, que indevidamente o usou no decurso da aula. A aluna não gosta e luta com a professora a fim de obter o telemóvel de volta.
A certa altura os colegas já intervêm, tentando parar a colega que, com histeria, lá vai torcendo o braço à professora, que não larga o telemóvel. O aluno que filma tudo vai fazendo comentários pouco simpáticos, e parece estar a gostar do "espectáculo", assim como outros alunos, que soltam umas risadas, e contribuem para aumentar a confusão que num minuto se instala na sala.
Que acontecimento lamentável.
Revela vários factos acerca do Portugal contemporâneo:

1- O telemóvel é um objecto tão importante para alguns jovens, que não se importam de sofrer seja que consequência for só para poder dispor dele. Essa dependência é, de resto, um fenómeno já conhecido. Há raparigas que se despem na internet por um carregamento do saldo do cartão do telemóvel.

2- A autoridade dos professores já não existe. É a realidade e não vale a pena disfarçar. Creio que só não há mais problemas porque ainda vai havendo quem, com jeito, vá contornando esse facto, quer professores, quer alunos. A culpa dessa perda de autoridade deve-se, em parte, às políticas educativas que têm vindo a ser produzidas, ano após ano neste país, ridicularizando a figura dos professores, menosprezando a importância que estes tem no sistema de ensino; e, por outro lado, à própria modificação dos contextos sociais em que crescem as crianças, hoje. Refiro-me ao acesso fácil que os jovens tem à internet, ao telemóvel e à televisão. Como nem sempre os pais estão presentes para moderar esse acesso, os jovens crescem a ver tudo, a fazer tudo, a saber tudo antes de terem maturidade para assimilar certas coisas.

3- "Decência" e "Respeito" são palavras que sairam do vocabulário de muitas famílias. E a escola não basta para as incutir na educação dos jovens. Se os próprios pais não insistirem, se não derem o exemplo, se não demonstrarem o que é certo e errado, os seus filhos nunca aprenderão a viver em sociedade. Vão, pelo contrário, achar que podem fazer seja o que for, que sairão impunes.

Feito este balanço, posso adiantar duas coisas mais:

1- A sociedade capitalista em que vivemos quer que as pessoas trabalhem sempre mais horas, com horários cada vez mais flexíveis, quer que as pessoas se endividem aos bancos (que é para não pararem de trabalhar), quer que tenham máxima disponibilidade (e quem não a tiver vai para o desemprego), quer que haja uma bolsa de desempregados para poder manter os trabalhadores debaixo do chicote, quer que os trabalhadores tenham medo, que não se sindicalizem, que aceitem contratos individuais de trabalho, para ficar cada vez mais frágeis;

2- A sociedade capitalista quer ainda que os jovens consumam, de preferência aquilo que os faz mais estúpidos e dependentes, quer que os jovens não pensem, que é para não questionarem muito, para poderem ser controlados, e até a irreverência é controlada, há produtos para os irreverentes, desde comida a música. Os jovens controlados de hoje são os dependentes de amanhã, assim espera o grande capital.


Pois é.
Tanta coisa escondida por trás de um video.
Portugal está cada vez mais a parecer-se com os Estados Unidos da America. Se aquela rapariga tivesse uma arma tinha, certamente, disparado sobre a professora.
E então, lá estariam todos preocupados com a violência. E seriam feitos muitos debates e programas de televisão para falar sobre o assunto...