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sexta-feira, 27 de junho de 2008

Tempo de Resistir


Em Abril visitei o Forte de Peniche integrada num grupo de gente que tinha muitas histórias para contar relacionadas com o tempo da ditadura fascista, e dos seus tempos de cativeiro. Uns tinham ali estado, outros tinham estado em Caxias, outros tinham estado em ambas! Na altura fiquei muito impressionada com tudo, com o Forte, que apesar de já conhecer, causa sempre um grande impacto, e com os relatos, que me fizeram sentir pequenina diante do passado de resistência daqueles lutadores.

Nunca é demais lembrar o que se passou em Portugal durante o Estado Novo. E hoje, mais do que nunca, assistimos a tentativas de branqueamento do passado. Quer pela tentativa de humanizar o ditador Salazar, quer pelas comparações que vão começando a ser escutadas, aqui e ali, com o governo de Sócrates. Efectivamente estamos perante um governo que governa o mais à direita possível. O descontentamento popular é flagrante.
Todas as classes profissionais são atingidas. Está instalada uma crise social muito complicada de resolver. O custo de vida está cada vez pior. Apesar de tudo isto, não podemos afirmar que se vive hoje como no tempo da ditadura. O valor da coragem e resistência de alguns permitiu que todos os portugueses, hoje em dia, pudessem usufruir da sua liberdade, do seu poder de voto, da sua capacidade de lutar, da possibilidade de, como trabalhadores, estarem organizados, sindicalizados, poderem dizer o que pensam... Acima de tudo, a luta de alguns permitiu abrir as portas a uma nova vida.
Usemos, pois, essa força que nos foi dada. É certo que os tempos não estão fáceis, mas hoje temos, como sempre tivémos, a força de estarmos unidos a lutar, a bater o pé, a dizer: Não Passarão! Hoje, mais do que nunca, temos de defender a liberdade e a democracia.
Amanhã, pode bem ser uma excelente oportunidade! E, que tal?
Vamos tentar?

sábado, 17 de maio de 2008

As pessoas...

Hoje de manhã houve 13 pessoas que não me responderam depois de eu lhes ter dito "Bom Dia".
Outras 4 olharam para mim e quando viram o que tinha nas mãos mudaram de direcção.
Houve uma que me disse para ir trabalhar.
E uma grande porcentagem respondeu "Não quero nada disso".
Houve outras, em menor quantidade, é certo, que foram correctas, responderam com educação, e, imagine-se, até com um sorriso.
Algumas compraram o que trazia para vender, juntamente com mais cinco camaradas.
Outras não compraram, mas, pelo menos, não foram insultuosas.
Quando desempenho uma simples função dentro do partido a que pertenço, faço-o com o maior sentido de missão. E já não é a primeira, nem segunda vez que vou para o centro da cidade onde resido vender o jornal "Avante!". Porém, de todas as vezes que o faço, sinto que fico a conhecer melhor este nosso mundo, habitado por todo o tipo de pessoas.
Mas algumas pessoas são, efectivamente, caricaturas de seres humanos. Tal é a podridão em que mergulharam. Tal o medo do cacique (porque no local onde resido há uma estranha tradição de obedecer ao senhor da terra).
Vivo, como já calcularam, numa cidade de direita pura e dura. Nesta cidade não é fácil levar para a frente uma luta, por mais justa que seja. Por mais consensual que seja.
Mas faz-me /faz-nos bem contactarmos com este tipo de pessoas, este tipo de cidades, este tipo de mentalidades.
Só nos faz ficar mais motivados para a luta. Só percebemos ainda com maior clareza, se ela faltasse, que há muito a fazer para defender os ideais de Abril. A nossa liberdade, pessoal e colectiva. A nossa democracia, sem "senhores" a pensar, ou a votar por nós.
Nesta cidade é um desafio permanente ser-se comunista. Todos os dias sou posta à prova. "Até onde és capaz de aguentar?" São os colegas de trabalho que boicotam as nossas pequenas, mas certeiras actividades. São as múltiplas lutas que precisamos de travar (e são tão poucas as mãos para trabalhar...). São estas pessoas que encontramos, com quem nos cruzamos, que nos olham, que nos julgam, e que já sabem tudo sobre nós e sobre o comunismo...
Mas há sempre forças, porque não estou só nesta batalha. Há sempre energia, porque sei que defendo o que é certo.
Há sempre coragem, porque se eu não a tiver, quem mudará o mundo?
Por isso, para a próxima lá estarei outra vez no Rossio.
"Bom dia. Quer comprar o jornal Avante?"

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Bertold Brecht dá uma lição a Sócrates...

... a propósito de comentários infelizes deste último, em Coimbra, que atentam contra a luta e os direitos dos trabalhadores portugueses.


Elogio da Dialéctica



A injustiça avança hoje a passo firme
Os tiranos fazem planos para dez mil anos
O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são
Nenhuma voz além da dos que mandam
E em todos os mercados proclama a exploração;
isto é apenas o meu começo


Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem
Aquilo que nós queremos nunca mais o alcançaremos


Quem ainda está vivo não diga: nunca
O que é seguro não é seguro
As coisas não continuarão a ser como são
Depois de falarem os dominantes
Falarão os dominados
Quem pois ousa dizer: nunca
De quem depende que a opressão prossiga? De nós
De quem depende que ela acabe? Também de nós
O que é esmagado que se levante!
O que está perdido, lute!
O que sabe ao que se chegou, que há aí que o retenha
E nunca será: ainda hoje


Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã.

domingo, 4 de maio de 2008

Maio Maduro Maio

Maio maduro Maio
Quem te pintou
Quem te quebrou o encanto
Nunca te amou.
Raiava o Sol já no Sul

E uma falua vinha

Lá de Istambul.

Sempre depois da sesta

Chamando as flores

Era o dia da festa

Maio de amores.
Era o dia de cantar
E uma falua andava

Ao longe a varar

Maio com meu amigo

Quem dera já

Sempre depois do trigo

Se cantará

Qu'importa a fúria do mar,

Que a voz não te esmoreça

Vamos lutar!

Numa rua comprida

El-rei pastor

Vende o soro da vida

Que mata a dor.

Venham ver, Maio nasceu.

Que a voz não te esmoreça

A turba rompeu.