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segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Está tudo dito

...E o senhor presidente da Câmara de Viseu ainda diz, com ar prazenteiro, que esta é uma das melhores cidades para se viver... Como li algures: " Ele há cada um"...

Não resisti a levar emprestada a crónica de António Vilarigues do blogue "O Castendo", publicada há dias no "Público".
Imperdível. Ora leiam:

"O que custa apresentar listas de candidatos"

Pela primeira vez em 39 anos de militância partidária participei em processos de apresentação de candidaturas às autarquias locais. Desde a elaboração das listas até à sua entrega nos tribunais. A realidade, mais uma vez, ultrapassou tudo o que poderia imaginar.

Neste ano de 2009 muitos intervenientes no processo eleitoral evidenciam uma manifesta incapacidade em respeitar a legalidade democrática.

Nuns casos, por claro sectarismo político-partidário que rapidamente se transforma em actuações à margem da lei. Os exemplos, infelizmente, abundam e podem multiplicar-se. Um presidente de junta recusa-se pura e simplesmente a passar certidões de eleitor à CDU e só o faz quando intimado pelas autoridades competentes. Outro entretém-se a ameaçar putativos candidatos de que «ai deles» se por lá aparecer o respectivo pedido de certidão. No interior de uma Câmara funcionários, usando as suas funções hierárquicas, ameaçam trabalhadores seus subordinados que são candidatos, ou apenas apoiantes, de outras listas. Dezenas de presidentes de junta hostilizam e dificultam quanto podem este simples processo burocrático de obtenção de uma certidão de eleitor. Desde horários a prazos, passando por provocações políticas e mesmo pessoais, tudo serve.

Noutros casos, porém, é a realidade do país que somos que se impõem. Há presidentes de junta com uma actuação correcta, mas com manifestas dificuldades para responder a estas situações. Deixo aqui, à reflexão dos leitores, um caso exemplar.

Chega-se a uma aldeia e pergunta-se pelo horário da junta. «Está sempre fechada», respondem. E o presidente? «Está em casa». Vai-se até lá por caminhos ainda não alcatroados. O presidente está na lida da terra, a apanhar batatas. Diz-se ao que se vai. «Mas tem de ser agora?», interroga com ar natural e sem preconceito. Lá se vai à junta, pelos mesmos caminhos, e aí chegado constata-se a falta de óculos para ler. Pede a colaboração e nova viagem. Liga-se o computador e mais problemas. Gentil, fornece a password e lá se consegue obter três certidões de eleitor.

A questão é que este não é um exemplo isolado. Multiplicou-se, com diferentes cambiantes, por dezenas em quase todos os 24 concelhos do distrito de Viseu. Casos houveram em que, por aversão às novas tecnologias, certidões foram passadas à mão. Embora o programa informático para o efeito exista há já 8 anos e equipe todas as juntas de freguesia de Portugal.

Como parêntesis humorístico refira-se que numa câmara se realizou uma acção de formação sobre como, no dia da votação, informar os eleitores do seu respectivo número. Pois acreditem que presidentes de junta apareceram com «auxiliares» de 9 e 13 anos! E eram de diferentes forças políticas (PS e PPD/PSD). Estamos conversados!

Chegados aos tribunais os problemas persistem. E fica sem se perceber muito bem o porquê de certas actuações díspares. Num caso chegam ao extremo de exigir a apresentação de todos os bilhetes de identidade de muitas dezenas de candidatos. E se num lado se pedem requerimentos para tudo e mais alguma coisa, no outro, mesmo ao lado, podem-se resolver os problemas de forma expedita.

Resumindo. Neste distrito de Viseu o preconceito e o sectarismo político-partidário de quem está no poder são determinantes e condicionam mentalidades e actuações. Ser candidato da CDU (e não só) é – 35 anos depois do 25 de Abril de 1974 – na maioria dos casos, uma atitude de coragem pessoal. O que deveriam ser actos normais de cidadania transformam-se, por obra e graça de alguns, em autênticas batalhas políticas. Registe-se e reflicta-se sobre a tão propalada «qualidade» da nossa democracia.

In jornal "Público" - Edição de 21 de Agosto de 2009

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Música para o Fim-de-Semana

Insónia. Outra vez.
Resolvi passar por cá!

Este video dispensa apresentações.
Verdi escreveu uma das mais belas páginas em toda a história da música com este "Va pensiero", o famoso coro dos escravos, da ópera "Nabucco".

Em tempos de profunda crise social - lá por estarmos em Agosto ela não desaparece - precisa-se de um pouco mais de solidariedade, de esperança por uma mudança séria para Portugal.

Até quando é que os portugueses se vão deixar enganar? Até quando é que se vão deixar manipular?

Espero que este segundo semestre de 2009 traga verdadeiras mudanças, caso contrário tudo continuará igual: os ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Até quando?


sábado, 23 de maio de 2009

Grande Marcha

Juro que gritarei pela liberdade,
E que não abrirei mão de a conquistar,
Em plenitude,
Com confiança.
Hoje é o dia da nossa marcha.
Hoje é o dia de luta.
E amanhã?
Amanhã a luta irá continuar.

Cá estarei. Cá estaremos

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

PCP processa CMViseu - para quem não viu

Aqui fica o video com a notícia que poderia ter sido evitada, se a Câmara Municipal de Viseu cumprisse a LEI.
Mas não o fez!
Porque será??? Porque é que a Festa do Avante! os incomoda tanto?


Cliquem AQUI.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Viseu: o "Fascistão" de Ruas


Aí estão as últimas.. PCP processa Câmara Municipal de Viseu.
Afinal, essa coisa da "democracia" é coisa que não diz nada a Fernando Ruas. Este autarca parece comportar-se como se o concelho fosse a sua coutada. A última foi a ordem de retirar todos (sim, todos!) os cartazes do PCP alusivos à Festa do Avante, que se encontravam espalhados pela cidade. Com a inauguração da feira de S. Mateus à porta, Fernando Ruas quis "varrer" os comunistas da cidade, preocupado, possivelmente, com futuras eleições...
Espero que nestas ordens, oriundas do seu gabinete, não venha incluída nenhuma perseguição "à pedrada" dos comunistas, à semelhança do que disse em tempos a propósito dos fiscais do Ministério do Ambiente, senão... estou feita ao bife....

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Tempo de Resistir


Em Abril visitei o Forte de Peniche integrada num grupo de gente que tinha muitas histórias para contar relacionadas com o tempo da ditadura fascista, e dos seus tempos de cativeiro. Uns tinham ali estado, outros tinham estado em Caxias, outros tinham estado em ambas! Na altura fiquei muito impressionada com tudo, com o Forte, que apesar de já conhecer, causa sempre um grande impacto, e com os relatos, que me fizeram sentir pequenina diante do passado de resistência daqueles lutadores.

Nunca é demais lembrar o que se passou em Portugal durante o Estado Novo. E hoje, mais do que nunca, assistimos a tentativas de branqueamento do passado. Quer pela tentativa de humanizar o ditador Salazar, quer pelas comparações que vão começando a ser escutadas, aqui e ali, com o governo de Sócrates. Efectivamente estamos perante um governo que governa o mais à direita possível. O descontentamento popular é flagrante.
Todas as classes profissionais são atingidas. Está instalada uma crise social muito complicada de resolver. O custo de vida está cada vez pior. Apesar de tudo isto, não podemos afirmar que se vive hoje como no tempo da ditadura. O valor da coragem e resistência de alguns permitiu que todos os portugueses, hoje em dia, pudessem usufruir da sua liberdade, do seu poder de voto, da sua capacidade de lutar, da possibilidade de, como trabalhadores, estarem organizados, sindicalizados, poderem dizer o que pensam... Acima de tudo, a luta de alguns permitiu abrir as portas a uma nova vida.
Usemos, pois, essa força que nos foi dada. É certo que os tempos não estão fáceis, mas hoje temos, como sempre tivémos, a força de estarmos unidos a lutar, a bater o pé, a dizer: Não Passarão! Hoje, mais do que nunca, temos de defender a liberdade e a democracia.
Amanhã, pode bem ser uma excelente oportunidade! E, que tal?
Vamos tentar?

sexta-feira, 13 de junho de 2008

É a democracia, estúpido!


No momento em que escrevo ainda não é confirmada mas é já dada como certa a vitória do "NÃO" no referendo ao Tratado de Lisboa, realizado na Irlanda, como manda a constituição daquele país.
A comunicação social apressa-se a dizer que é uma crise para a Europa, etc, e tal, colocando-se claramente ao lado daqueles que preferiam outro resultado.
Além de ser eticamente incorrecto os jornalistas darem a notícia sem a isenção a que deveriam ser obrigados, além das estações de televisão contratarem pseudo-analistas que vão explicar aos comuns mortais a grande desgraça que aconteceu, com discursos do género "vejam lá, estes irlandeses estúpidos, inviabilizaram o Tratado de Lisboa.. Chatice. E agora, como é que vai ser?", além de nos estarem a tentar impingir a ideia de que este resultado é um "grande problema", além de tudo isto temos de suportar a mentira descarada, a arrogância e a impunidade com que se fala da soberania dos povos europeus.
Ainda ninguém com responsabilidade teve a coragem de dizer: "É a democracia. Foi a vontade do povo e deve ser respeitada". Luís Amado, em declarações proferidas na Sic Notícias, enfatizou a enorme crise despoletada por este "Não".
Para este Governo, para Sócrates, para Durão Barroso, para os tais líderes europeus, mas sobretudo para o grande capital, a democracia só dá jeito quando serve os seus interesses, de exploração, de estrangulamento das pessoas.
Em todos os países o Tratado de Lisboa foi ratificado, à revelia das populações, sem referendar o que quer que fosse. Não quiseram correr riscos depois dos chumbos à Constituição Europeia, na França e na Holanda. Inventaram uma forma de, por decreto, instalarem novas formas de exploração, mais instabilidade laboral para os trabalhadores, mais assimetrias sociais. No entanto, sendo obrigados a respeitar a constituição irlandesa, lá tiveram que "ceder", e levar o Tratado de Lisboa a referendo. Mas com esta vitória do "Não" terão de encontrar um novo caminho. É caso para dizer "é a democracia, estúpido". Agora não vos dá jeito?!

A luta dos povos vai continuar. E o único caminho que resta à Europa é, sem dúvida, mudar de rumo!

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Dr. Manuel Jekyll and Mr. Hyde Alegre

...Que é como quem diz: enquanto o Manuel Alegre andar a fazer figuras tristes o zé povinho fica enganado por mais algum tempo... Refiro-me ao encontro das esquerdas (es...quê?!) no Trindade. Notícia de fundo ao longo do dia de ontem.
É estratégia. Obviamente. A estratégia é desviar a atenção da força crescente (e evidente) do PCP. E iludir. Travar as intenções de algumas pessoas de aderirem à manifestação de hoje.
Mas não conseguiram. Isso é que era bom!!
Não é possível encontrar ainda qualquer tipo de coerência na pessoa do Manuel Alegre. Não se pode estar de manhã na AR a votar a favor do novo Código Laboral, e à noite a gritar esganiçado "contra o capitalismo, rumo ao socialismo".... (não sei se foi isto que ele gritou, mas era esse o sentido...)
Há uma designação clínica para pessoas com este tipo de patologias. Chama-se esquizofrenia.
Assim, parece-me que o Manuel Alegre terá composto a "Trova do vento que passa" num dia em que se considerava o Dr Jekyll... Mas pelo resto da sua vida, como militante do PS, assumiu a personalidade de Mr Hyde, o monstro.
Ironias à parte, não pretendo ofender ninguém.
Acredito que houvesse gente honesta no teatro da Trindade. Mas não Manuel Alegre, que deve saber muito bem o papel que desempenha no seio do PS.
Fiquemos atentos ao desenrolar dos acontecimentos, mas com a mais profunda certeza de que se Manuel Alegre não saiu até agora do seu partido também já não o fará. E, de qualquer maneira, estou-me completamente marimbando para mais este fait-divers.
Não há verdades absolutas, mas há absolutamente a necessidade de ouvir a verdade, e só a verdade, daqui para a frente.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

25 de Abril sempre!

25 DE ABRIL SEMPRE!
FASCISMO NUNCA MAIS!

Na noite de 24 para 25 tive insónias. Não dormi entre as 3 e as 6 da manhã.
Sem nenhuma razão aparente. É coisa que não costuma acontecer.
Pús-me a ler, a certa altura. O livro chama-se: "Porque vivi e quero contar" e é de autoria do Sérgio Ribeiro. Grande coincidência, li as suas palavras contando detalhadamente na primeira pessoa o que aconteceu naquele 25 de Abril de 74. Do ponto de vista de alguém que era preso político em Caxias, e que sofreu na pele os horrores de um regime fascista, as torturas, as prisões, as perseguições...

...
Lutou-se pela democracia, lutou-se pela liberdade.
E quem lutou tinha rosto e tinha nome. Alguns infelizmente já só existem na nossa memória. Outros não. E que enorme privilégio ouvir-lhes as histórias.
E por mais que queiram branquear o passado cá estaremos, eu e outros, para avivar a memória e dizer: eram comunistas. Deram o corpo ao manifesto. Lutaram por um Portugal novo. Resistiram. E tenho por eles a maior admiração.
A eles o meu obrigado.

terça-feira, 15 de abril de 2008

As Portas que Abril abriu

“As Portas Que Abril Abriu”
Porque estamos em Abril... E não só...
Começa assim:


Era uma vez um país
onde entre o mar e a guerra
vivia o mais infeliz
dos povos à beira-terra

Onde entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo se debruçava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza

Era uma vez um país
onde o pão era contado
onde quem tinha a raíz
tinha o fruto arrecadado
onde quem tinha o dinheiro
tinha o operário algemado
onde suava o ceifeiro
que dormia com o gado
onde tossia o mineiro
em Aljustrel ajustado
onde morria primeiro
quem nascia desgraçado

Era uma vez um país
de tal maneira explorado
pelos consórcios fabris
pelo mando acumulado
pelas ideias nazis
pelo dinhiero estragado
pelo dobrar da cerviz
pelo trabalho amarrado
que até hoje já se diz
que nos tempos dos passado
se chamava esse país
Portugal suicidado

Ali nas vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
vivia um povo tão pobre
que partia para a guerra
para encher quem estava podre
de comer a sua terra

Um povo que era levado
para Angola nos porões
um povo que era tratado
como a arma dos patrões
um povo que era obrigado
a matar por suas mãos
sem saber que um bom soldado
nunca fere os seus irmãos

Ora passou-se porém
que dentro de um povo escravo
alguém que lhe queria bem
um dia plantou um cravo

Era a semente da esperança
feita de força e vontade
era ainda uma criança
mas já era a liberdade

Era já uma promessa
era a força da razão
do coração à cabeça
da cabeça ao coração
Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas tabém tinha a seu lado
muitos homens na prisão

Esses que tinham lutado
a defender um irmão
esses que tinham passado
o horror da solidão
esses que tinham jurado
sobre uma côdea de pão
ver o povo libertado
do terror da opressão

Não tinham armas é certo
mas tinham toda a razão
quando um homem morre perto
tem de haver distanciação

uma pistola guardada
nas dobras da sua opção
uma bala disparada
contra a sua própria mão
e uma força perseguida
que na escolha do mais forte
faz com a que a força da vida
seja maior do que a morte

Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão

Posta a semente do cravo
começou a floração
do capitão ao soldado
do soldado ao capitão

Foi então que o povo armado
percebeu qual a razão
porque o povo despojado
lhe punha as armas na mão

Pois também ele humilhado
em sua própria grandeza
era soldado forçado
contra a pátria portuguesa
Era preso e exilado
e no seu próprio país
muitas vezes estrangulado
pelos generais senis

Capitão que não comanda
não pode ficar calado
é o povo que lhe manda
ser capitão revoltado
é o povo que lhe diz
que não ceda e não hesite
- pode nascer um país
do ventre duma chaimite

Porque a força bem empregue
contra a posição contrária
nunca oprime nem persegue
- é a força revolucionária!

Foi então que Abril abriu
as portas da claridade
e a nossa gente invadiu
a sua própria cidade

Disse a primeira palavra
na madrugada serena
um poeta que cantava
o povo é quem mais ordena

E então por vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
desceram homens sem medo
marujos soldados "páras"
que não queriam o degredo
de um povo que se separa.

E chegaram à cidade
onde os monstros se acoitavam
era a hora da verdade
para as hienas que mandavam
a hora da claridade
para os sóis que despontavam
e a hora da vontade
para os homens que lutavam

Em idas vindas esperas
encontros esquinas e praças
não se pouparam as feras
arrancaram-se as mordaças
e o povo saiu à rua
com sete pedras na mão
e uma pedra de lua
no lugar do coração

Dizia soldado amigo
meu camarada e irmão
este povo está contigo
nascemos do mesmo chão
trazemos a mesma chama
temos a mesma razão
dormimos na mesma cama
comendo do mesmo pão


Camarada e meu amigo
soldadinho ou capitão
este povo está contigo
a malta dá-te razão
Foi esta força sem tiros
de antes quebrar que torcer
esta ausência de suspiros
esta fúria de viver
este mar de vozes livres
sempre a crescer a crescer
que das espingardas fez livros
para aprendermos a ler
que dos canhões fez enxadas
para lavrarmos a terra
e das balas disparadas
apenas o fim da guerra

Foi esta força viril
de antes quebrar que torcer
que em vinte e cinco de Abril
fez Portugal renascer

E em Lisboa capital
dos nosvos mestres de Aviz
o povo de Portugal
deu o poder a quem quis

Mesmo que tenha passado
às vezes por mãos estranhas
o poder que ali foi dado
saiu das nossas entranhas.
Saiu das vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
onde um povo se curvava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua prórpia pobreza

E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe.
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu.

Essas portas que em Caxias
se escancararam de vez
essas janelas vazias
que se encheram outra vez
e essas celas tão frias
tão cheias de sordidez
que espreitavam como espias
todo o povo português.

Agora que já floriu
a esperança na nossa terra
as portas que Abril abriu
nunca mais ninguém as cerra.

Contra tudo o que era velho
levantado como um punho
em Maio surgiu vermelho
o cravo de mês de Junho.

Quando o povo desfilou
nas ruas em procissão
de novo se processou
a própria revolução.

Mas era olhos as balas
abraços punhais e lanças
enamoradas as alas
dos soldados e crianças.

E o grito que foi ouvido
tantas vezes repetido
dizia que o povo unido
jamais seria vencido.

Contra tudo o que era velho
levantado como um punho
em Maio surgiu vermelho
o cravo do mês de Junho.
E então operários mineiros
pescadores e ganhões
marçanos e carpinteiros
empregados dos balcões
mulheres a dias pedreiros
reformados sem pensões
dactilógrafos carteiros
e outras muitas profissões
souberam que o seu dinheiro
era presa dos patrões.

A seu lado também estavam
jornalistas que escreviam
actores que desbobravam
cientistas que aprendiam
poetas que estrebuchavam
cantores que não se vendiam
mas enquanto estes lutavam
é certo que não sentiam
a fome com que apertavam
os cintos dos que os ouviam.
Porém cantar é ternura
escrever constrói liberdade
e não há coisa mais pura
do que dizer a verdade.

E uns e outros irmanados
na mesma luta de ideias
ambos sectores explorados
ficaram partes iguais.


Entanto não descansavam
entre pragas e perjúrios
agulhas que se espetavam
silêncios boatos murmúrios
risinhos que se calavam
palácios contra tugúrios
fortunas que levantavam
promessas de maus augúrios
os que em vida se enterravam
por serem falsos e espúrios
maiorais da minoria
que diziam silenciosa
e que em silêncio faziam
a coisa mais horrorosa:
minar como um sinapismo
e com ordenados régios
o alvor do socialismo
e o fim dos privilégios.
Foi então se bem vos lembro
que sucedeu a vindima
quando pisámos Setembro
a verdade veio acima.

E foi um mosto tão forte
que sabia tanto a Abril
que nem o medo da morte
nos fez voltar ao redil.
Ali ficámos de pé
juntos soldados e povo
para mostrarmos como é
que se faz um país novo.

Ali dissemos não passa!
E a reacção não passou.
Quem já viveu a desgraça
odeia a quem desgraçou.

Foi a força do Outono
mais forte que a Primavera
que trouxe os homens sem dono
de que o povo estava à espera.

Foi a força dos mineiros
pescadores e ganhões
operários e carpinteiros
empregados dos balcões
mulheres a dias pedreiros
reformados sem pensões
dactilógrafos carteiros
e outras muitas profissões
que deu o poder cimeiro
a quem não queria patrões.
Desde esse dia em que todos
nós repartimos o pão
é que acabaram os bodos
- cumpriu-se a revolução.

Porém em quintas vivendas
palácios e palacetes
os generais com prebendas
caciques e cacetetes
os que montavam cavalos
para caçarem veados
os que davam dois estalos
na cara dos empregados
os que tinham bons amigos
no consórcio dos sabrões
e coçavam os umbigos
como quem coça os galões
os generais subalternos
que aceitavam os patrões
os generais inimigos
os genarais garanhões
teciam teias de aranha
e eram mais camaleões
que a lombriga que se amanha
com os próprios cagalhões.
Com generais desta apanha
já não há revoluções.

Por isso o onze de Março
foi um baile de Tartufos
uma alternância de terços
entre ricaços e bufos.

E tivemos de pagar
com o sangue de um soldado
o preço de já não estar
Portugal suicidado.

Fugiram como cobardes
e para terras de Espanha
os que faziam alardes
dos combates em campanha.

E aqui ficaram de pé
capitães de pedra e cal
os homens que na Guiné
apenderam Portugal.
Os tais homens que sentiram
que um animal racional
opões àqueles que o firam
consciência nacional.

Os tais homens que souberam
fazer a revolução
porque na guerra entenderam
o que era a libertação.
Os que viram claramente
e com os cinco sentidos
morrer tanta tanta gente
que todos ficaram vivos.

Os tais homens feitos de aço
temperado com a tristeza
que envolveram num abraço
toda a história portuguesa.

Essa história tão bonita
e depois tão maltratada
por quem herdou a desdita
da história colonizada.

Dai ao povo o que é do povo
pois o mar não tem patrões.
- Não havia estado novo
nos poemas de Camões!
Havia sim a lonjura
e uma vela desfraldada
para levar a ternura
à distância imaginada.

Foi este lado da história
que os capitães descobriram
que ficará na memória
das naus que de Abril partiram
das naves que transportaram
o nosso abraço profundo
aos povos que agora deram
novos países ao mundo.

Por saberem como é
ficaram de pedra e cal
capitães que na Guiné
descobriram Portugal.
Em em sua pátria fizeram
o que deviam fazer:
ao seu povo devolveram
o que o povo tinha a haver:
Bancos seguros petróleos
que ficarão a render
ao invés dos monopólios
para o trabalhos crescer.

Guindastes portos navios
e outras coisas para erguer
antenas centrais e fios
de um país que vai nascer.
Mesmo que seja com frio
é preciso é aquecer
pensar que somos um rio
que vai dar onde quiser
pensar que somos um mar
que nunca mais tem fronteiras
e havemos de navegar
de muitíssimas maneiras.
No Minho com pés de linho
no Alentejo com pão
no Ribatejo com vinho
na Beira com requeijão
e trocando agora as voltas
ao vira da produção
no Alentejo bolotas
no Algarve maçapão
vindimas no Alto Douro
tomates em Azeitão
azeite da cor do ouro
que é verde ao pédo Fundão
e fica amarelo puro
nos campos do Baleizão.
Quando a terra for do povo
o povo deita-lhe a mão!

É isto a reforma agrária
em sua própria expressão:
a maneira mais primária
de que nós temos um quinhão
da semente proletária
da nossa revolução.

Quem a fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.

De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
um menino que sorriu
uma porta que se abrisse

um fruto que se expandiu
um pão que se repartisse
um capitão que seguiu
o que história lhe predisse
e entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo que levantava
sobre um rio de pobreza
a bandeira em que ondulava
a sua prórpia grandeza!

De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
e só nos faltava agora
que este Abril não se cumprisse.

Só nos faltava que os cães
viesses ferrar o dente
na carne dos capitães
que se arriscaram na frente.

Na frente de todos nós
povo soberano e total
e ao mesmo tempo é a voz
e o braço de Portugal.

Ouvi banqueiros fascistas
agiotas do lazer
latifundiários machistas
balofos verbos de encher
e outras coisa em istas
que não cabe dizer aqui
que aos capitães progressistas
o povo deu o poder!

E se esse poder um dia
o quiser reoubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe!

Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu!

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Vozes de Abril





É HOJE!!! Não percam.
Vamos aplaudir quem contribuiu para tornar Portugal um país LIVRE!


Coliseu de Lisboa - 4 de Abril 2008, 21h30m


INTÉRPRETES: Brigada Victor Jara, Carlos Alberto Moniz, Carlos Carranca, Carlos Mendes, Couple Coffee, Ermelinda Duarte, Erva de Cheiro, Estudantina de Lisboa, Fernando Tordo, Francisco Fanhais, Haja Saúde, Helena Vieira e Coro Infanto-Juvenil, Jacinta, João Afonso, José Barata Moura, José Jorge Letria, José Mário Branco, Lua Extravagante (Vitorino, Janita Salomé, Carlos Salomé, Filipa Pais), Lúcia Moniz, Luís Goes, Luiza Basto e João Fernando, Manuel Freire, Maria do Amparo, Pedro Barroso, Raul Solnado, Samuel, Tino Flores, Waldemar Bastos.

PARTICIPAÇÃO ESPECIAL: Patxi Andion.
POESIA: Joaquim Pessoa, José Fanha, Manuel Alegre, Maria Barroso.
CORPO DE BAILE: Coreografado por Marco de Camillis.
PARTICIPAÇÃO TEATRAL: A Barraca ( Autor e Encenador Hélder Costa).
CORAL ALENTEJANO: "Os Alentejanos" da Damaia e "Grupo da Liga de Amigos de S. Domingos" de Sacavém.
GUITARRRA E VIOLA: João Alvarez e Durval Moreirinhas.
BANDAS: Exército, Força Aérea, Marinha.
BANDA MUSICAL: Dirigida por Carlos Alberto Moniz.

APRESENTADORES: Júlio Isidro e Sílvia Alberto.

A transmissão na RTP será feita no dia 25 de Abril.

segunda-feira, 17 de março de 2008

O Povo é quem mais ordena!!! MESMO!!!

Quero lembrar-me, a todo o momento,
e lembrar toda a gente que por aqui passe
que realmente é o povo quem mais ordena.
E essa verdade não vai mudar nunca.

segunda-feira, 3 de março de 2008

Abril em Março


Dia 1 passou demasiado depressa.
Quero voltar a ver aqueles rostos cheios de força e de alegria;
quero voltar a ver aquela cor vermelha nas ruas, nas praças, no rossio, na cidade;
quero reviver aquele sentimento de esperança, coragem e certeza de que a luta trará uma vitória. De que um mundo mais justo é possível.

No dia 1 de Março de 2008, por umas horas foi Abril. o Nosso Abril, que é o Abril de todo um povo, de um país inteiro.
Abril que jamais deixará de o ser.
Pelo menos, enquanto houver cinquenta mil capazes de tudo para o defender.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

É AMANHÃ


É pela Democracia e pela Liberdade que vamos.

É para defender Abril.

Vai valer a pena a luta!

Atá amanhã

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

A escola a quem a trabalha

A Educação está na ordem do dia. A figura triste, para não dizer deprimente, que a ministra fez no programa "Prós e Contras" na segunda-feira deixou-me um sorriso amargo nos lábios. É que, se por um lado existe uma forte contestação por parte dos professores, que tem vindo a crescer de tom nos últimos meses, por outro, apercebemo-nos claramente que esta senhora, ao contrário de outros que passaram pelo cargo, sabe bem o que anda ali a fazer. Ela sabe bem qual a cartilha por onde se rege. Ela demonstra exactamente a mesma arrogância do primeiro-ministro. Quem a ouve parece que a Educação nunca esteve tão bem. As políticas de direita do Governo, nesta área como noutras, estão orientadas para uma só finalidade: destruir o que de democrático ainda existe no sistema.
A escola será talvez uma das poucas instituições onde quem tem funções de gestão é também quem dá (ou deu, ou dará) aulas. Porque os conselhos executivos são eleitos, porque há mandatos, porque os professores são empenhados, participativos, e preocupados com o projecto específico da escola. As escolas são instituições onde a participação de um colectivo marca a diferença, contribuindo para uma evolução, para um bom trabalho ter lugar. E mais, esse funcionamento serve de exemplo aos jovens, que percebem através da sua experiência no ensino, no papel de alunos, qual a importância do trabalho colectivo, da discussão de ideias, da liberdade e da democracia que deverão ser princípios orientadores da sua postura pela vida fora.
Não é, por isso, de estranhar que esta gente queira modificar este enquadramento, utilizando para isso, diversas estratégias, umas mais óbvias que outras. E, contagiados pelo formato universitário "bolonhês", querem trazer para o ensino básico e secundário os mesmos tiques neo-liberais oriundos de uma Europa entregue ao grande capital, que quer tudo menos seres pensantes e autónomos nas escolas. Antes preferem gente que saiba inglês desde cedo (a língua do Império), e que tenha uma postura acrítica na vida, sendo assim muitíssimo mais fáceis de controlar.
Faz tudo parte do mesmo bolo. O mesmo Sócrates que recebe com tapete vermelho os líderes (detesto esta palavra) europeus, trata agora de arrumar de vez com tudo o que é público. Desde hospitais a escolas.
Mas este Governo não perde por esperar (como se diz lá na minha terra).
Nunca vi tanta gente indignada. Mesmo gente que nunca esperei vêr.
E este mês de Março vai-lhes custar caro, vai-lhes dar muitas dores de barriga.
Já é quase dia 1...