Vi, ouvi e gravei, com muita satisfação, o espectáculo "Vozes de Abril", no coliseu, que passou na RTP 1 no dia 25, à noite. Tratou-se de um espectáculo de grande nível, pela força da presença de certos artistas que, de forma ímpar interpretaram canções de que gosto muito, acompanhadas por poemas inesquecíveis. Mas... quando a esmola é grande o santo desconfia. E, bem me queria parecer que um espectáculo destes nesta altura da vida dos portugueses, e nesta altura da governação socialista, levava água no bico.
Senão vejamos: soube de fonte segura (pela
Maria, que esteve lá no dia da gravação) que terá havido uma palavra de ordem (mais concretamente uma dedicatória a todos os professores) que não foi emitida. Cortaram uma frase... Pode acontecer...
Depois, a última quadra do "Somos Livres", aquela que diz: "Somos um povo que cerra fileiras/parte à conquista do pão e da paz/somos livres, somos livres/não voltaremos atrás" foi eliminada do arranjo, interpretado, naquele caso, pela Helena Vieira, que certamente terá cantado o que lhe puseram à frente. Também pode acontecer...
Entretanto cortaram uma canção ao Paxti Andión, que era dedicada ao Federico Garcia Lorca... Isto... também pode acontecer...
Depois, os planos das camaras, junto do público. Ora focavam o António Costa, ora o (Arghh..) Fernando Rosas. E ainda a Helena Roseta, a Ana Drago, a Ana Gomes, o Almeida Santos, e muitas outras caras conhecidas do PS e do BE. Vi poucas do PSD. Nenhuma do PCP. Puro Acaso? Não creio. Só uma vez consegui ver, muito de raspão, o António Filipe, do PCP. Mas acredito que deveriam estar lá muuuuuiitos comunistas. Já são coincidências a mais...
Porquê então isto?
Talvez a resposta esteja no segredo dos deuses, no gabinete de Sócrates, ou no departamento de marketing do governo. Pareceu-me, francamente, que tudo isto não passou duma operação de charme, com objectivos bem claros de sustentar a ideia da "viragem à esquerda" deste governo. Querendo com isto, obviamente, travar o caminho ao PCP, que nos últimos tempos tem aparecido "demasiadas vezes" (na concepção de Sócrates), porque tem sido quem mais tem estado ao lado das populações, havendo até, pela primeira vez desde há muito tempo, uma clara manifestação de apoio ao PCP por parte de várias classes profissionais. Pareceu-me que houve aqui uma tentativa de "capturar" o eleitorado "flutuante".
Foi esta ideia sórdida que me atravessou o espírito, enquanto assistia a um espectáculo fora de série. Mas todo ele pensado para não dar relevo ao papel do PCP na revolução de Abril. Até a Maria Barroso lá puseram, a servir de ornamento.
Porém, a verdade é uma só...
Por mais que filmassem os socialistas na assistência, eram obrigados a filmar os muitos (felizmente) comunistas que pelo palco passaram, os vivos e os mortos.
Do Adriano à Luísa Basto, do Barata Moura ao Lopes-Graça, do Ary dos Santos ao Samuel, e muitos, muitos outros, os nossos artistas, artistas e comunistas, estiveram presentes, e isso, definitivamente, não conseguiram ocultar. Se ocultassem não haveria programa. Ponto Final.Não quis com este post retirar qualquer valor ao que se passou no coliseu. Creio que foi um momento único, que trouxe boas recordações a uns e muita emoção a outros, mas este meu lado céptico não me deixa descansar. Quem me dera estar enganada, e que tudo não passe da minha fértil imaginação...
Bom Fim de Semana.