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sábado, 24 de abril de 2010

24 de Abril / 25 Abril 1974

Primeiro veio o medo... a ditadura...

...depois a guerra...
... a resistência...

... os que perderam a vida...

..."Chamava-se Catarina, o Alentejo a viu nascer"...

... "Vão dizendo em toda a parte: "o pintor morreu"...

...os que se organizaram...


...os que sonharam ser possível...


... os que lutaram na clandestinidade...


... os que se revoltaram...


... os que se uniram...

... os que avançaram...



... os que trouxeram a esperança ...

...finalmente a LIBERDADE para um povo amordaçado...


...voltar atrás? Nunca mais!
VIVA O 25 DE ABRIL!!!

domingo, 26 de abril de 2009

Um dia depois de Abril

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.


Manuel Alegre (poema feito num tempo em que ainda era coerente)

sexta-feira, 24 de abril de 2009

25 de Abril SEMPRE


Quero viver este dia! Quero que as futuras gerações saibam o que é o 25 de Abril.
Para nós, portugueses livres, é hoje que gritamos:

25 de Abril Sempre
Fascismo nunca mais!

VIVA À LIBERDADE. VIVA O 25 DE ABRIL!

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Elas... e a Revolução

Agora que se aproxima o 25 de Abril, não há dia em que não me lembre de tudo o que outros passaram, o que lutaram, o que padeceram em nome da Liberdade. Aqui fica uma simples mas sentida homenagem às mulheres construtoras de um Abril libertador! Fico sempre arrepiada quando leio este poema.


"Elas"

(excerto final)

REVOLUÇÃO

Elas fizeram greves de braços caídos.

Elas brigaram em casa para ir ao sindicato e à junta.

Elas gritaram à vizinha que era fascista.

Elas souberam dizer salário igual e creches e cantinas.

Elas vieram para a rua de encarnado.

Elas foram pedir para ali uma estrada de alcatrão e canos de água.

Elas gritaram muito.

Elas encheram as ruas de cravos.

Elas disseram à mãe e à sogra que isso era dantes.

Elas trouxeram alento e sopa aos quartéis e à rua.

Elas foram para as portas de armas com os filhos ao colo.

Elas ouviram falar de uma grande mudança que ia entrar pelas casas.

Elas choraram no cais agarradas aos filhos que vinham da guerra.

Elas choraram de ver o pai a guerrear com o filho.

Elas tiveram medo e foram e não foram.

Elas aprenderam a mexer nos livros de contas e nas alfaias das herdades abandonadas.

Elas dobraram em quatro um papel que levava dentro uma cruzinha laboriosa.

Elas sentaram-se a falar à roda de uma mesa a ver como podia ser sem os patrões.

Elas levantaram o braço nas grandes assembleias.

Elas costuraram bandeiras e bordaram a fio amarelo pequenas foices e martelos.

Elas disseram à mãe, segure-me aqui nos cachopos, senhora, que a gente vai de camioneta a Lisboa dizer-lhes como é.

Elas vieram dos arrabaldes com o fogão à cabeça ocupar uma parte de casa fechada.

Elas estenderam roupas a cantar, com as armas que temos na mão.

Elas diziam tu às pessoas com estudos e aos outros homens.

Elas iam e não sabiam para aonde, mas que iam.

Elas acendem o lume.

Elas cortam o pão e aquecem o café esfriado.

São elas que acordam pela manhã as bestas, os homens e as crianças adormecidas.


Dezembro de 1975

in CRAVO, MARIA VELHO DA COSTA, MORAES EDITORES, 1976

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Longe vão os tempos... (será?)

"Em 1926 é instalado o regime fascista.
A Constituição de 1933 estabelece a igualdade dos cidadãos perante a lei “salvo quanto à mulher, às diferenças da sua natureza e do bem da família”.
O Código Civil de 1934 consignava o homem como o “chefe da família a quem a mulher e a criança deviam obediência”. À mulher competia, sobretudo, os cuidados domésticos: “ manter o asseio, a ordem e a alegria no lar”, mas a realidade social evidenciava a existência de mulheres a trabalhar ganhando 2/3 do salário do homem.

Num discurso de 1933, Salazar afirmava: “o trabalho da mulher fora do lar desagrega este, separa os membros da família, torna-os estranhos”. “À mulher compete tornar a casa atraente e acolhedora, prestar ao marido a deferência e submissão como chefe de família” – lê-se no Manual de Educação Moral e Cívica, que constava do programa escolar nos anos 40.

Muitos provérbios populares davam expressão ao modo como o regime fascista encarava as mulheres: A casa é das mulheres e a rua é dos homens; A mulher e o melão, o calado é o melhor; A mulher só diz duas verdades por dia. Ao levantar-se: - Tenho tanto que fazer hoje! Ao deitar-se: - Passou-se o dia e não fiz nada; Quem a sua mulher ensina a ler ou é cornudo ou está para ser; Da burra im e da mulher que sabe latim livra-te tu e a mim; Não provam bem as senhoras que se metem a doutoras."

in www.mdm.org.pt

Passados quase 35 anos de Revolução de Abril, que marcou profundamente a viragem na forma como a mulher é encarada na sociedade portuguesa, definindo pela primeira vez os seus direitos e a sua função social, o seu papel, atrevo-me a perguntar: Será que é verdade? Será que já não há razões para as mulheres se sentirem descriminadas? Será que a sociedade já lhe atribui a verdadeira importância? Será??

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

11 de Setembro


Este dia é um dia estranho. Está marcado por duas acções que demonstram a que ponto pode chegar a maldade humana. Certamente lembrar-se-ão de 2001, e do ataque às torres gémeas, do World Trade Center, nos EUA.
Outros lembram-se de 1973 e do golpe de estado ocorrido no Chile, que depôs o presidente socialista eleito Salvador Allende, ficando em seu lugar Augusto Pinochet, sendo este, na verdade, um fantoche dos EUA.
De um acontecimento toda a gente fala, passou-se há menos tempo, tratou-se de um ataque terrorista, na era das tecnologias, ie, as pessoas assistiram de suas casas a tudo o que estava a acontecer em directo na televisão, como se de um filme se tratasse. Porém, o outro acontecimento, o tal de 1973, tem para nós, portugueses, um impacto maior. Talvez porque estávamos a uns escassos meses do 25 de Abril de 1974, ainda que não o soubéssemos, talvez porque também o povo chileno foi oprimido, talvez porque a resistência e a luta de uns tantos naquele país distante na América do Sul servissem de inspiração a uns tantos resistentes anti-fascismo neste nosso país.
Talvez porque...

Mundo cão, este!

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Carta ao Provedor dos leitores do DN

Ex.mo Sr. Mário Bettencourt Resendes

Venho por este meio pedir um esclarecimento em virtude da leitura de uma artigo de opinião de autoria do senhor Alberto Gonçalves, que se intitulava "As goelas que Abril abriu".
Ao abrigo da liberdade de expressão, direito garantido constitucionalmente, pode um cronista ofender um conjunto de pessoas, algumas já falecidas, por não gostar da sua estética? Pode escrever coisas como "a seita sobrevivente" referindo-se a um conjunto de intérpretes que participaram num programa de televisão, mais concretamente num concerto gravado no Coliseu de Lisboa? Pode afirmar que as canções de intervenção têm melodias "indigentes" e que os "poemas" de Gedeão e Saramago são "lixo"? Pode dizer que "o povo mítico" dos "baladeiros" não existia, que será, porventura, o mesmo que dizer que o povo não esteve com os militares que levaram a cabo a revolução do 25 de Abril?

O senhor Alberto Gonçalves é sociólogo. Porém, a leitura que fez da sociedade no contexto da revolução de 74 não está de acordo com a verdade dos factos. Faltar-lhe-á documentação, porque, consultando qualquer História de Portugal poderia compreender como tudo se passou. Sugiro-lhe a "Breve História de portugal", de Oliveira Marques, da Editorial Presença, 1995, todo o capítulo XIV.

Mas não são os conhecimentos históricos do senhor Alberto Gonçalves que estão em causa. A meu ver, trata-se apenas de uma situação em que, tentando escudar-se com o direito à liberdade de opinião, este colaborador do DN resolve fazer uma campanha atentando contra o 25 de Abril, os cantores e poetas de então, alguns ainda vivos (e a realizar concertos na actualidade), e até mesmo contra... a própria liberdade, conquistada à força, mas com a força de todos.

Está, certamente, bastante incomodado, porque, por estes dias, a liberdade conquistada a 25 de Abril tem sido cada vez mais defendida, através das muitas manifestações populares, de vários sectores profissionais, que, aos milhares, vêm dizer que Abril está vivo, e não morto, como o senhor Alberto Gonçalves gostaria (na minha opinião, afinal também tenho direito a ela).
Agradecia um esclarecimento relativamente a este assunto, que me parece da maior importância.



Com os melhores cumprimentos


Carta que enviei por email ao provedor dos leitores do DN, em virtude de um artigo muito rasco que por lá apareceu. Vejam o Cantigueiro, está lá tudo.

domingo, 27 de abril de 2008

Vozes de Abril

Vi, ouvi e gravei, com muita satisfação, o espectáculo "Vozes de Abril", no coliseu, que passou na RTP 1 no dia 25, à noite. Tratou-se de um espectáculo de grande nível, pela força da presença de certos artistas que, de forma ímpar interpretaram canções de que gosto muito, acompanhadas por poemas inesquecíveis. Mas... quando a esmola é grande o santo desconfia. E, bem me queria parecer que um espectáculo destes nesta altura da vida dos portugueses, e nesta altura da governação socialista, levava água no bico.
Senão vejamos: soube de fonte segura (pela Maria, que esteve lá no dia da gravação) que terá havido uma palavra de ordem (mais concretamente uma dedicatória a todos os professores) que não foi emitida. Cortaram uma frase... Pode acontecer...
Depois, a última quadra do "Somos Livres", aquela que diz: "Somos um povo que cerra fileiras/parte à conquista do pão e da paz/somos livres, somos livres/não voltaremos atrás" foi eliminada do arranjo, interpretado, naquele caso, pela Helena Vieira, que certamente terá cantado o que lhe puseram à frente. Também pode acontecer...
Entretanto cortaram uma canção ao Paxti Andión, que era dedicada ao Federico Garcia Lorca... Isto... também pode acontecer...
Depois, os planos das camaras, junto do público. Ora focavam o António Costa, ora o (Arghh..) Fernando Rosas. E ainda a Helena Roseta, a Ana Drago, a Ana Gomes, o Almeida Santos, e muitas outras caras conhecidas do PS e do BE. Vi poucas do PSD. Nenhuma do PCP. Puro Acaso? Não creio. Só uma vez consegui ver, muito de raspão, o António Filipe, do PCP. Mas acredito que deveriam estar lá muuuuuiitos comunistas. Já são coincidências a mais...
Porquê então isto?
Talvez a resposta esteja no segredo dos deuses, no gabinete de Sócrates, ou no departamento de marketing do governo. Pareceu-me, francamente, que tudo isto não passou duma operação de charme, com objectivos bem claros de sustentar a ideia da "viragem à esquerda" deste governo. Querendo com isto, obviamente, travar o caminho ao PCP, que nos últimos tempos tem aparecido "demasiadas vezes" (na concepção de Sócrates), porque tem sido quem mais tem estado ao lado das populações, havendo até, pela primeira vez desde há muito tempo, uma clara manifestação de apoio ao PCP por parte de várias classes profissionais. Pareceu-me que houve aqui uma tentativa de "capturar" o eleitorado "flutuante".
Foi esta ideia sórdida que me atravessou o espírito, enquanto assistia a um espectáculo fora de série. Mas todo ele pensado para não dar relevo ao papel do PCP na revolução de Abril. Até a Maria Barroso lá puseram, a servir de ornamento.
Porém, a verdade é uma só...

Por mais que filmassem os socialistas na assistência, eram obrigados a filmar os muitos (felizmente) comunistas que pelo palco passaram, os vivos e os mortos.
Do Adriano à Luísa Basto, do Barata Moura ao Lopes-Graça, do Ary dos Santos ao Samuel, e muitos, muitos outros, os nossos artistas, artistas e comunistas, estiveram presentes, e isso, definitivamente, não conseguiram ocultar. Se ocultassem não haveria programa. Ponto Final.


Não quis com este post retirar qualquer valor ao que se passou no coliseu. Creio que foi um momento único, que trouxe boas recordações a uns e muita emoção a outros, mas este meu lado céptico não me deixa descansar. Quem me dera estar enganada, e que tudo não passe da minha fértil imaginação...

Bom Fim de Semana.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

25 de Abril sempre!

25 DE ABRIL SEMPRE!
FASCISMO NUNCA MAIS!

Na noite de 24 para 25 tive insónias. Não dormi entre as 3 e as 6 da manhã.
Sem nenhuma razão aparente. É coisa que não costuma acontecer.
Pús-me a ler, a certa altura. O livro chama-se: "Porque vivi e quero contar" e é de autoria do Sérgio Ribeiro. Grande coincidência, li as suas palavras contando detalhadamente na primeira pessoa o que aconteceu naquele 25 de Abril de 74. Do ponto de vista de alguém que era preso político em Caxias, e que sofreu na pele os horrores de um regime fascista, as torturas, as prisões, as perseguições...

...
Lutou-se pela democracia, lutou-se pela liberdade.
E quem lutou tinha rosto e tinha nome. Alguns infelizmente já só existem na nossa memória. Outros não. E que enorme privilégio ouvir-lhes as histórias.
E por mais que queiram branquear o passado cá estaremos, eu e outros, para avivar a memória e dizer: eram comunistas. Deram o corpo ao manifesto. Lutaram por um Portugal novo. Resistiram. E tenho por eles a maior admiração.
A eles o meu obrigado.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

100ª mensagem

Quis o destino que este blogue, tendo tido o seu arranque a 18 de Janeiro de 2008, atingisse hoje, 24 de Abril, a centésima mensagem.
Já escrevi 100 mensagens.
Será que vou ter motivos para outras 100?
A julgar pelas notícias, vou, certamente.

Então, não é que um tal de Cunha Vaz, que é Director dos Serviços de Oftalmologia dos HUC, vem dizer para a televisão que os serviços médicos, mais concretamente cirurgias, realizados em Cuba a centenas de portugueses, são "fraudulentos" e "não têm valor científico"? Uma avaliação fundamentada em quê? Nos seus preconceitos a respeito deste país? Um país que ele considera "atrasado", com falta de meios, e ao qual recomenda que só se vá "para cumprimentar o Fidel Castro"? Está tudo dito.
Quem não concorda é só... o resto do mundo (excluindo os EUA, claro). A julgar pelas listas que não param de aumentar de pessoas que querem ir a Cuba tratar da sua saúde, calculamos que em breve este senhor Cunha Vaz tenha que se mudar para Miami. Pelo menos, lá, estará bem acompanhado.
Também me parece que, por cá, passamos bem sem ele. Que o digam as pessoas de Vila Real de Santo António, Alandroal, etc.
E por falar em Vila Real de Santo António, envio daqui um breve aplauso às palavras do autarca Luís Gomes, que, com uma só cajadada mata dois coelhos, relativamente a este assunto, afirmando: «Desconheço algum hospital público em Portugal com as mesmas condições que vi em Cuba», e assegura que não se trata de mera propaganda internacional, uma vez que «aquelas são as condições normais com que os cubanos são tratados» (Fonte: IOL Portugal Diário). Para um autarca do PSD até nem está mal. Quanto ao senhor Cunha Vaz, desejo-lhe umas boas cataratas e uma lista de espera de 20 anos, só para ele.



Nota de rodapé: Boas comemorações desta linda madrugada, deste 25 de Abril em flor. Eu, por cá, já tenho um grande jantar, hoje, e um grande almoço, amanhã.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

O Futuro


Em vésperas deste 34º aniversário do 25 de Abril, quero dedicar este post aos meus amigos, camaradas e visitantes da blogosfera, que de forma inacreditável têm contribuído para a reposição das minhas forças, e da minha confiança num futuro melhor, graças aos comentários deixados.
É muito bom saber que não estamos isolados nesta luta, que é minha, nossa, de todos e por todos.

Vamo-nos vendo (lendo) por aí...

O Futuro

Isto vai meus amigos isto vai
um passo atrás são sempre dois em frente
e um povo verdadeiro não se trai
não quer gente mais gente que outra gente

Isto vai meus amigos isto vai
o que é preciso é ter sempre presente
que o presente é um tempo que se vai
e o futuro é o tempo resistente

Depois da tempestade há a bonança
que é verde como a cor que tem a esperança
quando a água de Abril sobre nós cai.

O que é preciso é termos confiança
se fizermos de maio a nossa lança
isto vai meus amigos isto vai.


José Carlos Ary dos Santos

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Abril Sempre



Lido algures na blogosfera:

"Que é para si a Liberdade, professor?"
"É teres a Liberdade de me fazeres a pergunta"

Aproxima-se o 25 de Abril e o meu entusiasmo começa a aumentar.
Dia 24 vou dar aulas com um cravo vermelho ao peito, ai vou, vou!
Entretanto tenho uns alunos a preparar um concerto muito interessante, com canções raramente feitas na esfera da música erudita. Algumas são do Zeca Afonso, outras do Adriano Correia de Oliveira, outras de Lopes-Graça.
E mais não digo.

terça-feira, 15 de abril de 2008

As Portas que Abril abriu

“As Portas Que Abril Abriu”
Porque estamos em Abril... E não só...
Começa assim:


Era uma vez um país
onde entre o mar e a guerra
vivia o mais infeliz
dos povos à beira-terra

Onde entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo se debruçava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza

Era uma vez um país
onde o pão era contado
onde quem tinha a raíz
tinha o fruto arrecadado
onde quem tinha o dinheiro
tinha o operário algemado
onde suava o ceifeiro
que dormia com o gado
onde tossia o mineiro
em Aljustrel ajustado
onde morria primeiro
quem nascia desgraçado

Era uma vez um país
de tal maneira explorado
pelos consórcios fabris
pelo mando acumulado
pelas ideias nazis
pelo dinhiero estragado
pelo dobrar da cerviz
pelo trabalho amarrado
que até hoje já se diz
que nos tempos dos passado
se chamava esse país
Portugal suicidado

Ali nas vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
vivia um povo tão pobre
que partia para a guerra
para encher quem estava podre
de comer a sua terra

Um povo que era levado
para Angola nos porões
um povo que era tratado
como a arma dos patrões
um povo que era obrigado
a matar por suas mãos
sem saber que um bom soldado
nunca fere os seus irmãos

Ora passou-se porém
que dentro de um povo escravo
alguém que lhe queria bem
um dia plantou um cravo

Era a semente da esperança
feita de força e vontade
era ainda uma criança
mas já era a liberdade

Era já uma promessa
era a força da razão
do coração à cabeça
da cabeça ao coração
Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas tabém tinha a seu lado
muitos homens na prisão

Esses que tinham lutado
a defender um irmão
esses que tinham passado
o horror da solidão
esses que tinham jurado
sobre uma côdea de pão
ver o povo libertado
do terror da opressão

Não tinham armas é certo
mas tinham toda a razão
quando um homem morre perto
tem de haver distanciação

uma pistola guardada
nas dobras da sua opção
uma bala disparada
contra a sua própria mão
e uma força perseguida
que na escolha do mais forte
faz com a que a força da vida
seja maior do que a morte

Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão

Posta a semente do cravo
começou a floração
do capitão ao soldado
do soldado ao capitão

Foi então que o povo armado
percebeu qual a razão
porque o povo despojado
lhe punha as armas na mão

Pois também ele humilhado
em sua própria grandeza
era soldado forçado
contra a pátria portuguesa
Era preso e exilado
e no seu próprio país
muitas vezes estrangulado
pelos generais senis

Capitão que não comanda
não pode ficar calado
é o povo que lhe manda
ser capitão revoltado
é o povo que lhe diz
que não ceda e não hesite
- pode nascer um país
do ventre duma chaimite

Porque a força bem empregue
contra a posição contrária
nunca oprime nem persegue
- é a força revolucionária!

Foi então que Abril abriu
as portas da claridade
e a nossa gente invadiu
a sua própria cidade

Disse a primeira palavra
na madrugada serena
um poeta que cantava
o povo é quem mais ordena

E então por vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
desceram homens sem medo
marujos soldados "páras"
que não queriam o degredo
de um povo que se separa.

E chegaram à cidade
onde os monstros se acoitavam
era a hora da verdade
para as hienas que mandavam
a hora da claridade
para os sóis que despontavam
e a hora da vontade
para os homens que lutavam

Em idas vindas esperas
encontros esquinas e praças
não se pouparam as feras
arrancaram-se as mordaças
e o povo saiu à rua
com sete pedras na mão
e uma pedra de lua
no lugar do coração

Dizia soldado amigo
meu camarada e irmão
este povo está contigo
nascemos do mesmo chão
trazemos a mesma chama
temos a mesma razão
dormimos na mesma cama
comendo do mesmo pão


Camarada e meu amigo
soldadinho ou capitão
este povo está contigo
a malta dá-te razão
Foi esta força sem tiros
de antes quebrar que torcer
esta ausência de suspiros
esta fúria de viver
este mar de vozes livres
sempre a crescer a crescer
que das espingardas fez livros
para aprendermos a ler
que dos canhões fez enxadas
para lavrarmos a terra
e das balas disparadas
apenas o fim da guerra

Foi esta força viril
de antes quebrar que torcer
que em vinte e cinco de Abril
fez Portugal renascer

E em Lisboa capital
dos nosvos mestres de Aviz
o povo de Portugal
deu o poder a quem quis

Mesmo que tenha passado
às vezes por mãos estranhas
o poder que ali foi dado
saiu das nossas entranhas.
Saiu das vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
onde um povo se curvava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua prórpia pobreza

E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe.
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu.

Essas portas que em Caxias
se escancararam de vez
essas janelas vazias
que se encheram outra vez
e essas celas tão frias
tão cheias de sordidez
que espreitavam como espias
todo o povo português.

Agora que já floriu
a esperança na nossa terra
as portas que Abril abriu
nunca mais ninguém as cerra.

Contra tudo o que era velho
levantado como um punho
em Maio surgiu vermelho
o cravo de mês de Junho.

Quando o povo desfilou
nas ruas em procissão
de novo se processou
a própria revolução.

Mas era olhos as balas
abraços punhais e lanças
enamoradas as alas
dos soldados e crianças.

E o grito que foi ouvido
tantas vezes repetido
dizia que o povo unido
jamais seria vencido.

Contra tudo o que era velho
levantado como um punho
em Maio surgiu vermelho
o cravo do mês de Junho.
E então operários mineiros
pescadores e ganhões
marçanos e carpinteiros
empregados dos balcões
mulheres a dias pedreiros
reformados sem pensões
dactilógrafos carteiros
e outras muitas profissões
souberam que o seu dinheiro
era presa dos patrões.

A seu lado também estavam
jornalistas que escreviam
actores que desbobravam
cientistas que aprendiam
poetas que estrebuchavam
cantores que não se vendiam
mas enquanto estes lutavam
é certo que não sentiam
a fome com que apertavam
os cintos dos que os ouviam.
Porém cantar é ternura
escrever constrói liberdade
e não há coisa mais pura
do que dizer a verdade.

E uns e outros irmanados
na mesma luta de ideias
ambos sectores explorados
ficaram partes iguais.


Entanto não descansavam
entre pragas e perjúrios
agulhas que se espetavam
silêncios boatos murmúrios
risinhos que se calavam
palácios contra tugúrios
fortunas que levantavam
promessas de maus augúrios
os que em vida se enterravam
por serem falsos e espúrios
maiorais da minoria
que diziam silenciosa
e que em silêncio faziam
a coisa mais horrorosa:
minar como um sinapismo
e com ordenados régios
o alvor do socialismo
e o fim dos privilégios.
Foi então se bem vos lembro
que sucedeu a vindima
quando pisámos Setembro
a verdade veio acima.

E foi um mosto tão forte
que sabia tanto a Abril
que nem o medo da morte
nos fez voltar ao redil.
Ali ficámos de pé
juntos soldados e povo
para mostrarmos como é
que se faz um país novo.

Ali dissemos não passa!
E a reacção não passou.
Quem já viveu a desgraça
odeia a quem desgraçou.

Foi a força do Outono
mais forte que a Primavera
que trouxe os homens sem dono
de que o povo estava à espera.

Foi a força dos mineiros
pescadores e ganhões
operários e carpinteiros
empregados dos balcões
mulheres a dias pedreiros
reformados sem pensões
dactilógrafos carteiros
e outras muitas profissões
que deu o poder cimeiro
a quem não queria patrões.
Desde esse dia em que todos
nós repartimos o pão
é que acabaram os bodos
- cumpriu-se a revolução.

Porém em quintas vivendas
palácios e palacetes
os generais com prebendas
caciques e cacetetes
os que montavam cavalos
para caçarem veados
os que davam dois estalos
na cara dos empregados
os que tinham bons amigos
no consórcio dos sabrões
e coçavam os umbigos
como quem coça os galões
os generais subalternos
que aceitavam os patrões
os generais inimigos
os genarais garanhões
teciam teias de aranha
e eram mais camaleões
que a lombriga que se amanha
com os próprios cagalhões.
Com generais desta apanha
já não há revoluções.

Por isso o onze de Março
foi um baile de Tartufos
uma alternância de terços
entre ricaços e bufos.

E tivemos de pagar
com o sangue de um soldado
o preço de já não estar
Portugal suicidado.

Fugiram como cobardes
e para terras de Espanha
os que faziam alardes
dos combates em campanha.

E aqui ficaram de pé
capitães de pedra e cal
os homens que na Guiné
apenderam Portugal.
Os tais homens que sentiram
que um animal racional
opões àqueles que o firam
consciência nacional.

Os tais homens que souberam
fazer a revolução
porque na guerra entenderam
o que era a libertação.
Os que viram claramente
e com os cinco sentidos
morrer tanta tanta gente
que todos ficaram vivos.

Os tais homens feitos de aço
temperado com a tristeza
que envolveram num abraço
toda a história portuguesa.

Essa história tão bonita
e depois tão maltratada
por quem herdou a desdita
da história colonizada.

Dai ao povo o que é do povo
pois o mar não tem patrões.
- Não havia estado novo
nos poemas de Camões!
Havia sim a lonjura
e uma vela desfraldada
para levar a ternura
à distância imaginada.

Foi este lado da história
que os capitães descobriram
que ficará na memória
das naus que de Abril partiram
das naves que transportaram
o nosso abraço profundo
aos povos que agora deram
novos países ao mundo.

Por saberem como é
ficaram de pedra e cal
capitães que na Guiné
descobriram Portugal.
Em em sua pátria fizeram
o que deviam fazer:
ao seu povo devolveram
o que o povo tinha a haver:
Bancos seguros petróleos
que ficarão a render
ao invés dos monopólios
para o trabalhos crescer.

Guindastes portos navios
e outras coisas para erguer
antenas centrais e fios
de um país que vai nascer.
Mesmo que seja com frio
é preciso é aquecer
pensar que somos um rio
que vai dar onde quiser
pensar que somos um mar
que nunca mais tem fronteiras
e havemos de navegar
de muitíssimas maneiras.
No Minho com pés de linho
no Alentejo com pão
no Ribatejo com vinho
na Beira com requeijão
e trocando agora as voltas
ao vira da produção
no Alentejo bolotas
no Algarve maçapão
vindimas no Alto Douro
tomates em Azeitão
azeite da cor do ouro
que é verde ao pédo Fundão
e fica amarelo puro
nos campos do Baleizão.
Quando a terra for do povo
o povo deita-lhe a mão!

É isto a reforma agrária
em sua própria expressão:
a maneira mais primária
de que nós temos um quinhão
da semente proletária
da nossa revolução.

Quem a fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.

De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
um menino que sorriu
uma porta que se abrisse

um fruto que se expandiu
um pão que se repartisse
um capitão que seguiu
o que história lhe predisse
e entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo que levantava
sobre um rio de pobreza
a bandeira em que ondulava
a sua prórpia grandeza!

De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
e só nos faltava agora
que este Abril não se cumprisse.

Só nos faltava que os cães
viesses ferrar o dente
na carne dos capitães
que se arriscaram na frente.

Na frente de todos nós
povo soberano e total
e ao mesmo tempo é a voz
e o braço de Portugal.

Ouvi banqueiros fascistas
agiotas do lazer
latifundiários machistas
balofos verbos de encher
e outras coisa em istas
que não cabe dizer aqui
que aos capitães progressistas
o povo deu o poder!

E se esse poder um dia
o quiser reoubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe!

Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu!

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Vozes de Abril





É HOJE!!! Não percam.
Vamos aplaudir quem contribuiu para tornar Portugal um país LIVRE!


Coliseu de Lisboa - 4 de Abril 2008, 21h30m


INTÉRPRETES: Brigada Victor Jara, Carlos Alberto Moniz, Carlos Carranca, Carlos Mendes, Couple Coffee, Ermelinda Duarte, Erva de Cheiro, Estudantina de Lisboa, Fernando Tordo, Francisco Fanhais, Haja Saúde, Helena Vieira e Coro Infanto-Juvenil, Jacinta, João Afonso, José Barata Moura, José Jorge Letria, José Mário Branco, Lua Extravagante (Vitorino, Janita Salomé, Carlos Salomé, Filipa Pais), Lúcia Moniz, Luís Goes, Luiza Basto e João Fernando, Manuel Freire, Maria do Amparo, Pedro Barroso, Raul Solnado, Samuel, Tino Flores, Waldemar Bastos.

PARTICIPAÇÃO ESPECIAL: Patxi Andion.
POESIA: Joaquim Pessoa, José Fanha, Manuel Alegre, Maria Barroso.
CORPO DE BAILE: Coreografado por Marco de Camillis.
PARTICIPAÇÃO TEATRAL: A Barraca ( Autor e Encenador Hélder Costa).
CORAL ALENTEJANO: "Os Alentejanos" da Damaia e "Grupo da Liga de Amigos de S. Domingos" de Sacavém.
GUITARRRA E VIOLA: João Alvarez e Durval Moreirinhas.
BANDAS: Exército, Força Aérea, Marinha.
BANDA MUSICAL: Dirigida por Carlos Alberto Moniz.

APRESENTADORES: Júlio Isidro e Sílvia Alberto.

A transmissão na RTP será feita no dia 25 de Abril.

quinta-feira, 27 de março de 2008

"...porque vivi e quero contar"*

Carta a uma irmã:

Há muito que não te escrevo. Não sei porquê. Mas de cada vez que começo desisto depois da primeira frase. Penso sempre se me irás compreender ou não.
Há muita coisa que deixou de fazer sentido na minha vida. Cresci.
Mas muitas outras coisas são agora mais claras, e começo agora a entender um pouco melhor o mundo à minha volta.
Há uma realidade à minha volta que não me deixa sossegar.
Não consigo passar indiferente por esta vida sem fazer algo que está ao alcance das minhas mãos: lutar. Lutar por um mundo bom, justo, belo. Onde todos se possam sentir bem.
Lutar é um pouco como amar.
Depois de se amar a primeira vez já não somos as mesmas pessoas, e já nada é igual.
Por isso, agora já não posso ficar calada, depois de ter visto o que outros lutaram, depois de ter visto o que outros sofreram. Depois de ver nos seus rostos a face dos homens que não morrem.
Agora já nada é igual.
Transcrevo-te o início de um livro que me ofereceram ontem.
Começa assim:

"Não, o 25 de Abril de 1974 não me apanhou como à grande maioria dos portugueses. Não foi a rádio surpreendentemente transformada em Rádio Liberdade, depois de ter sido Grândola e pontapé de saída;(...)
Na manhã do 25 de Abril de 1974 acordei na cela 44 de Caxias-Norte. Comecei nesse acordar mais um dia de prisão, naquela fase em que parece que nos puseram de salmoura, preparando-nos para interrogatórios, torturas, grandes e duras provas."


Já nada é igual, sabes?

Mana


*Livro do autor Sérgio Ribeiro
1ª Ed., Agosto 1983, Prelo Editora/Editorial Estampa

quarta-feira, 19 de março de 2008

Barba preta


Depois de ler um comentário feito num dos posts anteriores fiquei, por momentos, sem palavras.
Tenho, obrigatoriamente, que deixar aqui uma mensagem ao Sérgio da barba branca, que já foi preta, e que num video que aqui coloquei, saía da prisão de Caxias a 26 de Abril de 1974.

Sérgio:
Nem sei o que te dizer.
Eu nunca passei por nada do que tu passaste, e aquelas imagens mexem comigo.
Calculo, pois, o que não significam para ti e para outros que viveram na primeira pessoa a repressão da ditadura fascista.
São lágrimas inevitáveis, camarada.
Choro contigo.

Mas que o nosso choro não seja senão
a busca da serenidade que precisamos para continuar a lutar.
Porque a luta...
continua...

segunda-feira, 17 de março de 2008

O Povo é quem mais ordena!!! MESMO!!!

Quero lembrar-me, a todo o momento,
e lembrar toda a gente que por aqui passe
que realmente é o povo quem mais ordena.
E essa verdade não vai mudar nunca.