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quinta-feira, 20 de agosto de 2009

De regresso à Pátria

Cá estamos novamente no nosso querido Portugal.
Talvez por ter estado num país a sério, sinto-me cada vez com menos paciência para as corrupções (grandes e pequenas), para os xicos-espertismos, para os "tugas na estrada", para os desinformados - já não há pachorra -, para os analfabrutos que em todas as terras encontramos, que repetem como máquinas bem ensinadas: "eu, de política não percebo nada!", e que, precisamente por ostentarem a sua burrice de forma tão ingénua, permitem que o grande capital continue, metodica e cirurgicamente, a dominar as suas vidas, a retirar-lhes direitos, a perpetuar a exploração do homem pelo homem.
Chatice!
Não mudou nada enquanto fui de férias!
Excepto... ter vindo com as mangas arregaçadas, e uma fúria nova... para a luta!
E claro...ter visto coisas bonitas, como esta.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Entre um poeta e um escritor...

Ontem fez anos que Ary dos Santos morreu. E que Portugal perdeu um excelente poeta. Perdeu também um lutador, um homem progressista, um ser bonito, que deixou o seu traço na história da poesia portuguesa. Porém... Não me lembro de ter ouvido nenhuma notícia sobre isso. Pode ter sido falha minha. Não vi televisão (como sempre), só ouvi rádio. Mas ainda que esteja enganada, posso dizer que, por contraste, me fartei de ouvir falar de um tal de Cristiano Ronaldo. Afinal, estamos em Portugal, e se a pena é mais forte que a espada, a bola é mais forte que a pena.
Mas nem tudo é mau...
Amanhã, se não houver sobressaltos, conto estar presente numa sessão pública de apresentação da edição especial de Quando os Lobos Uivam, agora que passam 50 anos da sua publicação. Esta edição tem um prefácio escrito pela pena de Álvaro Cunhal, e tem ilustrações de João Abel Manta. Esta notícia certamente não será dada nos noticiários, a não ser que o tal Cristiano Ronaldo resolva vir a Viseu comprar um livro de Aquilino Ribeiro. (Tenho dúvidas que o Cristiano Ronaldo saiba quem foi Aquilino Ribeiro... "Em que equipa é qu'ele joga???")
Para concluir, para quem nunca leu
Quando os Lobos Uivam, aqui fica o convite, em forma de excerto retirado do dito...


Engenheiro Streit – O problema eu torno a formular: existe neste concelho uma vasta zona, coisa de 10 a 15 mil hectares, meia desértica, meia maninha, parte escalvada pela erosão ou de pedenal improdutivo, parte mato galego, chamada serra dos milhafres. Na periferia estão enquistadas (…) uma dezena de aldeias, que lhe são, por um terço mais ou menos, feudatárias de estrumes, chamiça ou lenha de queimar ou pastagens. O Estado diz a estas aldeias: tomo-lhes conta de uma porção, 50 a 70 por cento, suponhamos. Onde hoje cresce apenas a rabugem vegetal, (…) dentro de 15 anos têm caruma à farta (…) A essa altura os rebanhos podem voltar a pastar pelas chapadas e devesas. Por outro lado, dentro de vinte, trinta anos, a região, que é pobre, com o trabalho de pinhal, derrubadas, serrações, gemagem, transportes e alimpas, terá aqui uma fonte apreciável de receitas e a ocupação certa de muitos braços.

Justo Rodrigues (presidente da Junta) - Já disse, e voltarei a dizê-lo na Câmara segunda-feira: a serra é nossa e muito nossa. Queremo-la assim, estamos no nosso direito. Desta forma é que nos faz arranjo. Os de Lisboa querem-na coberta de pinhal…? Semeiem pinhal nos parques e jardins onde têm empedrado e relva só pra vista.

Nacomba – Vai haver sangue, não haja dúvida – vai, vai! Se o governo teima em meter aqui a pata, temo-la tramada!

(...)

Dr. Rigoberto – A nação é de todos. A nação tem de ser igual para todos. Se não é igual para todos, é que os dirigentes, que se chamam Estado, se tornaram quadrilha. Se não presta ouvido ao que eu penso e não me deixa pensar como quero, se não deixa liberdade aos meus actos, desde que não prejudiquem o vizinho, tornou-se cárcere. Não, os serranos, mil, cinco mil, dez mil, têm tanto direito a ser respeitados como os restantes senhores da comunidade. Se os sacrificam, cometem uma acção bárbara, e eles estão no direito de se levantar por todos os meios contra tal política.

Louvadeus- Quando esta aldeia estiver mais adiantada, civilizada, tenha luz eléctrica, telefone, escolas dignas, hospital, água potável, (então) fale o estado em levar por diante este número do programa. Até lá, com fome, tamancos de amieiro e barbárie em toda a linha, deixem-nos o que temos. Não nos queiram ditar a vossa lei pela bala e a baioneta.
(Interrompe) Olhe que Nós também não vamos a Lisboa cobiçar os relvados, que lá há, para pastagem das nossas vacas (…) pois podia-se-lhe chamar aproveitar a terra!

Compra samarras – Conho (…) A serra foi dos serranos desde que o mundo é mundo, herdada de pais para filhos. Quem vier para no-la tirar, connosco se há-de haver!


Querem mais? Comprem o livro!
Um agradecimento à minha amiga Filomena pela selecção dos excertos.



Nota de Rodapé: Depois do comentário da Maria fiz uma pequena pesquisa e fiquei mais descansada. Afinal fui eu que ouvi mal, a notícia da rádio falava de um programa especial sobre o Ary dos Santos, para assinalar a sua morte que foi a 18 de Janeiro de 1984...Fiquei mais descansada porque se não se ouviu nada mais sobre isso foi porque... ainda estamos a 16 de Janeiro. Ainda há esperança de ver a sua morte assinalada convenientemente na comunicação social. Antes assim.

sábado, 13 de setembro de 2008

Novo Ano Lectivo

As escolas estão, por estes dias, a iniciar o novo ano lectivo.
Fui a várias do ensino regular, por estes dias, por necessidade de articulação entre estas e as escolas de ensino especializado de música.
Em todas me deparei com o cenário dantesco de professores por colocar, horários feitos à pressão para garantir a abertura do ano escolar, mas que vão dar montes de problemas e para a semana já foram todos alterados, alunos e pais descontentes com transportes, conselhos executivos com dores de cabeça por tudo e mais alguma coisa, alunos com necessidades educativas especiais que não são correctamente encaixados nas turmas, crianças problemáticas sem possibilidade de terem apoio psicológico na escola, falta de recursos humanos e materiais, sub-financiamento em geral, escolas fechadas por autarquias mas com professores colocados, e alunos à espera de ter aulas, directrizes do ME oriundos de gente de gabinete, que são tudo menos realistas, não conhecem a realidade.
Mas depois...
Veio aquela senhora dizer que "está tudo bem neste novo início de ano lectivo"...
Precisará de óculos ou é mesmo estúpida?
A quem pensa que engana?
Não há pachorra para mais mentiras deste Governo.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

11 de Setembro


Este dia é um dia estranho. Está marcado por duas acções que demonstram a que ponto pode chegar a maldade humana. Certamente lembrar-se-ão de 2001, e do ataque às torres gémeas, do World Trade Center, nos EUA.
Outros lembram-se de 1973 e do golpe de estado ocorrido no Chile, que depôs o presidente socialista eleito Salvador Allende, ficando em seu lugar Augusto Pinochet, sendo este, na verdade, um fantoche dos EUA.
De um acontecimento toda a gente fala, passou-se há menos tempo, tratou-se de um ataque terrorista, na era das tecnologias, ie, as pessoas assistiram de suas casas a tudo o que estava a acontecer em directo na televisão, como se de um filme se tratasse. Porém, o outro acontecimento, o tal de 1973, tem para nós, portugueses, um impacto maior. Talvez porque estávamos a uns escassos meses do 25 de Abril de 1974, ainda que não o soubéssemos, talvez porque também o povo chileno foi oprimido, talvez porque a resistência e a luta de uns tantos naquele país distante na América do Sul servissem de inspiração a uns tantos resistentes anti-fascismo neste nosso país.
Talvez porque...

Mundo cão, este!

sábado, 30 de agosto de 2008

Tugolândia's Crime

Encontrei uma excelente reflexão acerca do aumento da criminalidade. Redigida pela mão do Samuel, poderão encontrá-la (a reflexão, não a mão) no seu blogue, O Cantigueiro.
Efectivamente, a meu vêr, são precisamente estas três ideias que me ocorrem, emanadas dos últimos acontecimentos (e não me refiro só aos crimes, refiro-me à esquizofrenia dos mass media em torno deste tema):
1-a criminalidade aumenta em épocas de maior crise, a História assim o indica, e é isso que está a acontecer. (Não é de espantar: a miséria aumenta, a fome aumenta, logo, o desespero aumenta. Se estivéssemos nas mesmas condições de alguns destes desgraçados, sem pão para dar aos filhos, talvez não tivéssemos a mesma perspectiva que temos neste momento, já jantados, bem instalados, e com um computador à frente);
2-a provocar esta crise está todo um sistema neo-liberal implantado quer no plano nacional, devido às políticas de direita de Sócrates, quer no plano internacional, com a especulação em torno dos combustíveis a provocar o caos planetário, guerras estratégicamente criadas por causa de eleições nos EUA, crise dos cereais, etc, etc;
3- em Portugal, tal como tem acontecido noutros países, está a ser feito um aproveitamento político evidente: para o cidadão ter a necessidade de louvar as medidas de segurança, tem de existir, primeiro, o sentimento de insegurança, e é precisamente isso que estão a conseguir criar no seio da sociedade portuguesa.

Lembro-me muitas vezes da questão das armas, na América, e do excelente documentário de Michael Moore, "Bowling for Columbine", onde a dada altura ele consegue demonstrar que o povo nos EUA vive aterrorizado, comprando compulsivamente armas para se defender, por contraste com os vizinhos canadianos. De cada vez que o Bush desce nas sondagens, lá apanham um video do Bin Laden para passar em horário nobre, principalmente nos EUA e na Europa.
Quantos de nós não vimos aumentados os nossos seguros, do automóvel ou da casa, com direito a uma cartinha enviada pela seguradora, depois dos ataques terroristas às torres gémeas do World Trade Center...

Em suma, o terrorismo foi um bom argumento para criar toda uma série de "sistemas de segurança", que permitem saber demais sobre a vida das pessoas... Tal como agora o são os assalto em Alcabideche, Campolide, Loulé, Boliqueime, Famalicão, etc, etc..., que permitirão a este Governo, com uma ajudinha da imprensa, demonstrar aos portugueses com é "útil" ao país, como está a governar bem, a proteger as pessoas, e, já agora, "votem lá outra vez em nós e esqueçam que fomos nós, com o nosso novo Código do Trabalho, com os nossos cortes na Saúde e Educação, com a nossa corrupção, com o nosso apoio incondicional ao grande capital... que fizémos com que vocês chegassem a essa situação"...

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Andei por aqui e por ali...

Por uns dias deixei a net descansadinha e lá fui eu, por aqui e por ali, por estes "caminhos de Portugal". De vez em quando aparecem cartazes, sinais de trânsito e avisos muito originais, que imagino só serem possíveis neste nosso país do "desenrasca". Há dias vi um aviso numa montra de Peso da Régua que dizia algo como "Temos agulhas para desentupir os bicos de fogões a gás" (lol), e no início de Agosto, de visita a uma terra portuguesa com bastante saída turística, o Marvão, havia um sinal de trânsito que dizia "Zona histórica", onde o estacionamento era proibido "excepto nos (poucos) locais autorizados".



Achei piada, sobretudo, aos parêntesis... Imaginam os ingleses a colocar um sinal de trânsito a dizer "Except in the (few) authorized places" ou os franceses a dizer "à l'exception des (peu nombreux) endroits autorisés"...???

Nós, portugueses, somos assim: vamos avisando logo que os lugares são poucos, por isso é melhor deixar o carro já aí, e não o levar para a zona histórica...
Somos amigos, não somos?

:)))

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Haja estômago para ser português

Sócrates anda entusiasmado com a sua própria obra. O nome mais correcto para este indivíduo seria Narciso, dado o seu gosto pela sua própria pessoa. O Primeiro-Ministro deste país acha que tudo vai de vento em popa, por cá.
Mas na verdade, Sócrates vive numa realidade à parte de todos os outros portugueses.
Este não é o país do desenvolvimento: é o país das assimetrias entre interior e litoral, entre norte e sul;
Este não é o país das novas oportunidades: é o país do desemprego a aumentar;
Este não é o país do simplex: é o país da burocracia, do mete-medo-ao-contribuinte;
este não é o país da segurança: é o país da instabilidade laboral, da vassalagem a novos códigos de trabalho que vão afundar mais na lama quem já está com a lama pelo pescoço;
Este não é o país do Berardo: é o país do Parque Arqueológico de Foz Côa que não tem orçamento para fotocópias a cores;
Este não é o país da Justiça: é o país que vê morrer um polícia em trabalho, quando a moto onde circulava se parte a meio por ser velha, sem que ninguém se tenha ainda preocupado em indemnizar a viúva e os seus filhos menores.

Este é o país do Sócrates.
Não é o país que queremos.

terça-feira, 6 de maio de 2008

PS

"Em Portugal não só se atravessa uma situação particularmente grave como poderá ter desenvolvimentos ainda mais agravantes, se o povo português não puser fim à política da direita desenvolvida pelo governo do PS e PSD que em conjunto preparam contra o povo, contra o país, contra a democracia, contra os interesses nacionais.

Já ninguém contesta que o voto no PS traduziu a esperança numa mudança. O PS enganou o eleitorado, e o eleitorado que tinha tal esperança enganou-se de votar no PS."


O ano era 1996, e as palavras são de Álvaro Cunhal, ditas durante o XV Congresso do PCP, no Porto.
Continuam actuais, por uma incrível coincidência. Mesmo decorridos 12 anos.
Sinto-me numa sala de cinema a ver uma nova versão de um filme conhecido. As personagens são diferentes mas o (mau) argumento é o mesmo.

Novos argumentistas até há. Precisam é de uma oportunidade
, e o filme será outro...

segunda-feira, 21 de abril de 2008

A Direita Portuguesa


Hoje liguei o rádio e, pimba. Lá levo com as considerações idiotas do Júdice, numa rádio pública (eu estou a pagar para ouvir parvoíces?): que o PSD não tem líder, que a direita está desorientada, que a maioria absoluta do PS não deixa o PSD ocupar o seu espaço de sempre no espectro político português, blá, blá, blá.
É espantoso verificar a falta de coragem deste e de muitos outros comentadores de serviço para dizer aquilo que é verdade, e que já quase todos os portugueses perceberam: que o problema é a governação à direita levada a cabo por este Partido (que se diz) Socialista. A propósito da desistência de Luís Filipe Meneses, estou plenamente de acordo com o que foi escrito no blogue Cravo de Abril, e passo a citar:
"Na verdade, o governo PS/Sócrates tem levado tão longe a política de direita comum ao PS e ao PSD, que não deixa qualquer espaço de manobra a qualquer candidato à execução dessa mesma política. E seja quem for o substituto de Menezes, irá confrontar-se com idênticos obstáculos. É que já não há folclore alternante que pegue..."

Posto isto, pergunto-me até quando se vai ignorar a verdade? Até quando vão os portugueses assobiar para o lado?
A oposição às políticas de direita do Sócrates existe, caramba.
É feita pelo Partido Comunista Português. Mas até quando esta verdade vai ser escondida, abafada?

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Linha do Tua



Mandaram-me um email a divulgar estas imagens com o seguinte texto:

Viagem de comboio na Linha do Tua. A paisagem, a fantástica obra de engenharia e a sua importância como serviço público, fazem da Linha do Tua uma das mais emblemáticas vias-férreas da Europa.

Confesso que nunca fiz a viagem pela linha do Tua, mas depois de ter visto este video fiquei com imensa vontade de fazer este percurso, último reduto ferroviário no nordeste português, mais concretamente entre Mirandela e Tua.
E mais motivos tenho agora. Muita tinta se tem escrito a propósito da possível, e já anunciada barragem, que este governo quer fazer naquela região, a pretexto de um presumível ganho energético para o país. Mas, como é apanágio deste primeiro-ministro, que ainda por cima tem a mania que percebe de "ambiente", a verdade dos factos não é publicitada. Quase não se ouve dizer que a barragem vai alterar profundamente a paisagem do Pinhão e de Carrazeda de Ansiães, localidades que integram uma zona classificada como "Património mundial" pela UNESCO. Uma barragem construída a cerca de um quilómetro e meio de distância do rio Douro pode provocar bastante impacto. E, ainda para mais, vai submergir cerca de 40km de linha de caminho de ferro, uma linha de via estreita, considerada por muitos especialistas como "uma das mais belas linhas ferroviárias do mundo"...

Há, inclusivé, uma petição a decorrer para defender a linha do Tua e não permitir a construção desta barragem.
Eu já assinei e aproveito para divulgar. Basta clicar.


E um dia destes vou fazer uma viagem pela linha do Tua, antes que seja tarde.


sexta-feira, 21 de março de 2008

A professora, a aluna e o telemóvel

Hoje houve várias pessoas que me enviaram por email um video que revela alguns dos mais graves problemas que neste momento se passam no ensino, em Portugal. No video, filmado por um telemóvel em plena sala de aula no Carolina Michaelis, no Porto, vê-se uma professora a retirar um telemóvel a uma aluna, que indevidamente o usou no decurso da aula. A aluna não gosta e luta com a professora a fim de obter o telemóvel de volta.
A certa altura os colegas já intervêm, tentando parar a colega que, com histeria, lá vai torcendo o braço à professora, que não larga o telemóvel. O aluno que filma tudo vai fazendo comentários pouco simpáticos, e parece estar a gostar do "espectáculo", assim como outros alunos, que soltam umas risadas, e contribuem para aumentar a confusão que num minuto se instala na sala.
Que acontecimento lamentável.
Revela vários factos acerca do Portugal contemporâneo:

1- O telemóvel é um objecto tão importante para alguns jovens, que não se importam de sofrer seja que consequência for só para poder dispor dele. Essa dependência é, de resto, um fenómeno já conhecido. Há raparigas que se despem na internet por um carregamento do saldo do cartão do telemóvel.

2- A autoridade dos professores já não existe. É a realidade e não vale a pena disfarçar. Creio que só não há mais problemas porque ainda vai havendo quem, com jeito, vá contornando esse facto, quer professores, quer alunos. A culpa dessa perda de autoridade deve-se, em parte, às políticas educativas que têm vindo a ser produzidas, ano após ano neste país, ridicularizando a figura dos professores, menosprezando a importância que estes tem no sistema de ensino; e, por outro lado, à própria modificação dos contextos sociais em que crescem as crianças, hoje. Refiro-me ao acesso fácil que os jovens tem à internet, ao telemóvel e à televisão. Como nem sempre os pais estão presentes para moderar esse acesso, os jovens crescem a ver tudo, a fazer tudo, a saber tudo antes de terem maturidade para assimilar certas coisas.

3- "Decência" e "Respeito" são palavras que sairam do vocabulário de muitas famílias. E a escola não basta para as incutir na educação dos jovens. Se os próprios pais não insistirem, se não derem o exemplo, se não demonstrarem o que é certo e errado, os seus filhos nunca aprenderão a viver em sociedade. Vão, pelo contrário, achar que podem fazer seja o que for, que sairão impunes.

Feito este balanço, posso adiantar duas coisas mais:

1- A sociedade capitalista em que vivemos quer que as pessoas trabalhem sempre mais horas, com horários cada vez mais flexíveis, quer que as pessoas se endividem aos bancos (que é para não pararem de trabalhar), quer que tenham máxima disponibilidade (e quem não a tiver vai para o desemprego), quer que haja uma bolsa de desempregados para poder manter os trabalhadores debaixo do chicote, quer que os trabalhadores tenham medo, que não se sindicalizem, que aceitem contratos individuais de trabalho, para ficar cada vez mais frágeis;

2- A sociedade capitalista quer ainda que os jovens consumam, de preferência aquilo que os faz mais estúpidos e dependentes, quer que os jovens não pensem, que é para não questionarem muito, para poderem ser controlados, e até a irreverência é controlada, há produtos para os irreverentes, desde comida a música. Os jovens controlados de hoje são os dependentes de amanhã, assim espera o grande capital.


Pois é.
Tanta coisa escondida por trás de um video.
Portugal está cada vez mais a parecer-se com os Estados Unidos da America. Se aquela rapariga tivesse uma arma tinha, certamente, disparado sobre a professora.
E então, lá estariam todos preocupados com a violência. E seriam feitos muitos debates e programas de televisão para falar sobre o assunto...

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

A nossa "Madrugada" de dia 1 de Março



Madrugada

Dos que morreram sem saber porquê
Dos que teimaram em silêncio e frio
Da força nascida do medo
Da raiva à solta manhã cedo
Fazem-se as margens do meu rio.

Das cicatrizes do meu chão antigo
E da memória do meu sangue em fogo
Da escuridão a abrir em cor
De braço dado e a arma flor
Fazem-se as margens do meu povo

Canta-se a gente que a si mesma se descobre
E acordem luzes arraias
Canta-se a terra que a si mesma se devolve
Que o canto assim nunca é demais

Em cada veia o sangue espera a vez
Em cada fala se persegue o dia
E assim se aprendem as marés
Assim se cresce e ganha pé
Rompe a canção que não havia

Acordem luzes nos umbrais que a tarde cega
Acordem vozes, arraiais
Cantam despertos na manhã que a noite entrega
Que o canto assim nunca é demais

Cantem marés por essas praias de sargaços
Acordem vozes, arraiais
Corram descalços rente ao cais, abram abraços
Que o canto assim nunca é demais
O canto assim nunca é demais.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Ainda o Ensino Artístico... (5)

...Desculpem lá, mas é a minha área. E como tal, não posso aceitar que depois de anos e anos de abandono por sucessivos governos Ps, Psd e Cds-pp, durante os quais os professores e alunos dos conservatórios tiveram de aprender a sobreviver (e mesmo assim foram formados grandes profissionais), o actual Governo sócretino queira fazer "tábua-rasa" de tudo o que existe em nome de uma "reforma" que só naquelas cabeças funciona. Que atrevimento vir dizer que querem "democratizar" o acesso a este tipo de ensino. Que lata. Este Governo tem, porventura, demonstrado sinais de democratização, de justiça e de sensatez na área da saúde? E quando fecharam escolas primárias um pouco por todo o país, estavam a democratizar o ensino? A torná-lo mais próximo das crianças, a permitir-lhes uma melhor qualidade de vida? Também nesta área a ideia é entregar tudo aos privados. Demitir o Estado das suas funções, esvaziá-lo da responsabilidade que este tem no fomento da Cultura e da criação artística no país. A ministra da Educação mentiu ao afirmar, em entrevista dada hoje à Sic Notícias, que "lá fora este é o modelo que melhor funciona", referindo-se ao regime de frequência integrado nas escolas de ensino especializado de música. Pois eu insisto: mentiu. Em França não é assim, em Espanha não é assim. Em Itália não é assim. E em Portugal o único conservatório onde o regime integrado funciona com um sucesso relativo é em Braga. Porém, nunca foi feito o balanço do número de profissionais formados em regime integrado comparativamente aos profissionais formados em regime supletivo ou articulado. Em termos porcentuais, claro.
A ministra tem um objectivo claro: reduzir drasticamente o número de alunos nos conservatórios públicos, através do corte das Iniciações e da obrigatoriedade do regime integrado. Entretanto, em alguns conservatórios particulares já se fala no corte de financiamento ao regime articulado. Pelo que, só podemos concluir que o suposto investimento de 15 milhões de euros será distribuido por uma de duas coisas, ou por ambas: pagar as despesas relativas à construção de dois novos edifícios, que serão construídos para albergar os conservatórios do Porto e de Coimbra, e para distribuir pelos privados que vierem a adoptar o regime integrado (o que constituirá um número residual, sendo poucas as hipóteses de se conseguir realizar tal façanha em certas áreas geográficas).
Reformar o ensino artístico era, na minha óptica, ampliar a rede de escolas públicas em todo o país. Era abrir cursos de dança e teatro em todos os conservatórios. Era colocar a música como actividade curricular no I ciclo - e não remetida para um papel perfeitamente idiota, que é o que acontece com os actuais enriquecimentos curriculares, a dar barraca por esse país fora.

Enfim...
Nota-se que estou só um bocadinho farta desta gente!

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Acordai



"Acordai homens que dormis" dizia José Gomes Ferreira.
Em todas as épocas houve pessoas "a dormir", i.e., alienadas da realidade. Pessoas a quem a dor e o sofrimento dos outros nada dizia. Pessoas que não se importavam que a injustiça e a desigualdade existissem. Pessoas que, com a sua insensibilidade, contribuiam para o perpetuar dessas mesmas injustiças. E sempre houve quem lutasse contra isso. Agora, ano 2008, Fevereiro, acho que estamos mais uma vez a caminhar para um limite. Já chega. É tempo de acordar novamente, de gritar o que nos vai na alma. De lutar por um mundo mais justo.

Não foi por acaso que na segunda-feira, na manifestação ocorrida junto ao Conservatório Nacional se cantou o "Acordai", em defesa do ensino artístico, agora ameaçado pelo Governo de Sócrates. A música de Lopes-Graça tem para nós um significado especial. Não vale só pela força das palavra e das notas, pelo jogo de vozes ou pelo grande crescendo. Vale por aquilo que representa: é o nosso toque de alerta, e recorda-nos que sem luta não se alcançam objectivos. Quem luta nem sempre ganha, mas quem não luta perde sempre...

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Ensino Artístico (2)


O Governo mente. Isto já não é novidade.
Mas agora chegou-me a mostarda ao nariz!
A notícia de hoje que podem ver no site da RTP revela o que pretende este Governo. Não se deixem enganar.
O regime Supletivo é o mais requisitado porque nem sempre as crianças descobrem aos 10 anos de idade que querem seguir profissionalmente a profissão de músicos. A escolha profissional decide-se aquando da passagem para o ensino secundário (10º ano). É bom recordar, em abono da verdade, que a esmagadora maioria dos músicos profissionais portugueses frequentou o conservatório em regime supletivo. Este regime de frequência é também o mais indicado para possibilitar a adultos a sua inscrição em escolas especializadas. Ou, porque se é adulto, não se pode estudar no ensino especializado? Até no ensino regular, os adultos que deixaram de estudar podem voltar à escola, e ter a oportunidade de seguir uma carreira nova. Quando digo "adulto" também posso dizer "jovem". Basta ter 15 anos e querer estudar música para já não o poder fazer numa escola especializada. "Porque é que não te lembraste disso quando tinhas 10 anos?!"
É bom dizer, em abono da verdade, que não existe uma rede de escolas públicas de ensino especializado. E que as escolas que fazem uma cobertura mínima do território português são particulares. Mas, contrariamente ao que acontece no ensino regular, muitas delas são de raiz associativa ou de gestão autárquica, não tendo fins lucrativos, e desempenhando um papel social importante. Não são comparáveis a colégios privados, nem devem, por isso, ser tratadas como tal. Eu acho que deveriam nacionalizar uma boa parte das academias e conservatórios privados, senão todos. Porque aí sim, estariam a permitir a centenas de crianças o acesso a este tipo de ensino (uma vez que, neste momento, não tem condições de pagar propinas). Essa medida daria prossecução aos objectivos deste ME: aumentar o número de alunos que frequentam o ensino artístico. Ah, pois. Mas isso precisaria de... investimento! E o Governo não quer gastar dinheiro com o ensino artístico. Por isso é que se esconde atrás de "nobres objectivos" e adopta uma série de medidas que vão lesar alunos e professores, e, no limite, a Cultura deste país. Como a decisão de acabar com as Iniciações.
É bom lembrar que as classes de Iniciação são fundamentais neste ensino. Acabar com elas é comprometer o futuro. Nos conservatórios as crianças já podem aprender um instrumento musical mesmo antes dos 10 anos, i.e, na Iniciação. Se isto for para a frente nunca mais teremos uma Maria João Pires - que começou a tocar piano aos 4 anos - nunca mais teremos fotos como a que vos deixo.

Agora a sério

Pois é.
Afinal, sempre houve carnaval. E lá se viram, um pouco por todo o lado, as costumeiras cenas de cortejos, dançarinas, carros alegóricos, fantasias, etc, etc. O problema é, como diz uma canção de Tom Jobim:

"A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Para fazer a fantasia
De rei, ou de pirata, ou jardineira
E tudo se acabar na quarta-feira."

Porque depois da festa os ricos, em Portugal, continuaram a ser ricos, e os pobres continuaram a ser explorados.

É importante pôr os pés na terra, não baixar os braços, demonstrar que estamos a perceber perfeitamente para onde querem levar este país.
E continuar a luta, continuar sempre.
Mesmo que paremos por um momento para rir, não podemos esquecer todos aqueles que só tem razões para chorar. E é pelos mais fracos, pelos oprimidos, pelos explorados, por todos os trabalhadores deste país que temos de dizer: Basta. Temos que mudar de rumo!

Este país precisa de outra política. Precisa de forte investimento na Saúde (e não de encerramentos compulsivos de serviços), precisa de uma forte aposta na Educação
(e não de perseguições aos professores como se eles fossem a causa de todos os males), precisa de Cultura (e não de especuladores de arte tipo Berardo).

Este país precisa de algo que este Governo não tem: Socialismo.
Mas agora, a sério.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Projectos Socráticos

O Sócrates assinou projectos realizados por outros, para a Câmara da Guarda. AAAAhhh. Como é bom viver num país cujo primeiro-ministro é o exemplo de integridade...
O problema não é o indivíduo ser um perfeito imbecil corrupto e assassino. O problema é haver gente que o defende... (Saudades de um ditador?)
É que, essas pessoas que o defendem vão voltar às urnas, arrebanhadas pelos caciques da terra, e vão tentar dar-lhe uma vez mais o poder absoluto que lhe permite, neste momento, estar a aniquilar Portugal. Como é odiosa a falta de cultura...
Entretanto, enviaram-me algumas imagens com os projectos de engenharia do Sr. Sousa.
Não sei se são verdadeiros, mas a julgar pelo mau gosto de alguns, devem ser.
Sentem-se e divirtam-se.

Projectos Socráticos

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Ensino Artístico

Eu não avisei?!
Ainda há pouco tempo me referia à comissão designada pelo Governo para estudar a reforma do ensino artístico. Ironicamente, tinha afirmado que esta concluiria exactamente aquilo que o Governo quer, para cumprir uma agenda que nós músicos e professores desconhecemos. Aí estão as mais recentes declarações do Ministério da Educação relativamente ao futuro deste tipo de ensino. Desfeitas as dúvidas, estamos pela primeira vez de que há memória em Portugal, perante a hipótese de extinção do ensino especializado de música.
Já há movimentações por parte de alguns colegas meus no sentido de travar as intenções do Ministério da Educação. Existe uma Petição que recomendo vivamente a todos que assinem. O link está aqui ao lado deste post, caso ainda não tenham visto.
A quem desconhece as particularidades deste tipo de ensino aponto 2 razões fortes para assinar:
1 - Não há uma rede de escolas públicas de ensino especializado, e não acredito que ESTE Governo a construa;
2 - O ensino integrado serve uma minoria de alunos. Se a reforma for para a frente vamos diminuir e não aumentar o número de alunos nas escolas de ensino especializado.

E fico por aqui. Até porque esta matéria promete pano para mangas.

O polícia, a multa e o acidente

Circulando alegremente pela A25 vi-me mandada parar por um carro da Brigada de Trânsito. Após os trâmites habituais, de pedido e verificação dos documentos, passou-se o seguinte diálogo.
Polícia: "Isto é um veículo de mercadorias..."
Eu: "Sim."[é um jipe de dois lugares]
Polícia: "Então e já foi à inspecção?"
Eu: "Não. O Jipe é praticamente novo. Tem dois anos. Não tem de ir à inspecção"
Polícia: "Sabe que os veículos de mercadorias com mais de dois anos tem de ir à inspecção?"
Eu:"..."
Polícia: "Pois é. O veículo é de Dezembro. Já passaram dois anos. Circular sem a inspecção feita dá direito à uma multa no valor de 250 euros."
Eu: "Como???? Não sabia..."
Polícia: "É assim. E é uma multa de pagamento imediato. No caso de não ser paga terei de lhe apreender os documentos do veículo..."
Eu: "250 euros? São 50 contos. Custam muito a ganhar. Custa-me a crer que... "
Polícia: "Pois custa, pois custa a ganhar..."

Entretanto o polícia retirou-se por uns momentos para ir ao seu carro.
Indignada, estupidificada e aparvalhada lá comecei a preencher um cheque, sem acreditar no que me estava a acontecer. Quando ele regressou, voltei à carga:

Eu: "Tanto rigor!!! Acha mesmo que esta fiscalização faz alguma coisa pela melhoria das condições de circulação nas estradas? É a cobrar multas que impedem os acidentes? Enquanto está aqui a multar-me podem estar a haver acidentes nesta estrada. E aí sim, é que vocês são precisos..."
Polícia: "Sim, mas repare que há veículos de transporte de mercadoria que com dois anos já estão muito usados, o que pode criar problemas... Além disso se você tiver um acidente sem a inspecção feita, o seguro....está a vêr, não é? Não paga nada."
Eu: "Ainda assim, há coisas bem mais graves, na estrada, para a polícia andar atrás. Se eu tivesse bebido, ou fosse em excesso de velocidade, aí sim. Estaria a pôr em risco a minha vida e a dos outros. Agora a falta de inspecção num carro com dois anos... Sinceramente."

O polícia retirou-se por mais um bocadinho. Ali fiquei...
Passei o cheque, e entreguei-o ao polícia que tinha voltado entretanto.
Quando me preparava para ir embora ainda reforcei uma vez mais a ideia:
Eu: "Espero que não esteja a decorrer para aí nenhum acidente, enquanto me estavam aqui a multar por uma coisa sem importância..."

Passada aquela interrupção na minha viagem, fiz-me novamente à estrada.
Cerca de um quilómetro à frente deparei-me com um acidente na faixa oposta. Um carro todo espatifado. Pessoas a correr, a fazerem sinal ao trânsito que lá vinha.. Tinha acabado de acontecer. E ainda não tinha chegado a Brigada de Trânsito.
Pudera. Esta estava entretida na caça à multa, ou à gorjeta, não percebi bem. Os polícias faziam falta no local do acidente. Faziam falta na estrada, a patrulhar, a lembrar aos condutores, através da sua presença, que o código da estrada deve ser cumprido, que a velocidade não deve ser excedida...

Assim não.
não há qualquer forma de nos sentirmos seguros, defendidos, protegidos pelas nossas forças de segurança. É que, sem uma acção justa, não há sociedade que resista por muito tempo.

Estou sempre solidária com as acções de luta destes profissionais, quando as há. Também eles são vítimas de políticas que os prejudicam gravemente. Mas cabe aos profissionais de qualquer área fazerem-se respeitar. Com telenovelas como esta acabam por perder a solidariedade de muita gente.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Videos chocantes

Vocês não ficam chocados? Eu fico. Mas os culpados tem rosto e tem nome.
E, entenda-se, os culpados não são a funcionária do INEM, nem o bombeiro de Favaios. Ambos tem falta de meios para trabalhar.
Os culpados são outros. Ora pensem lá...
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Ah!... O Governo!... Exactamente! Foi quem fechou serviços por esse país fora sem olhar à realidade, às necessidades das populações.
E Sócrates? Será julgado?