
Hoje tive duas surpresas. Vá. Uma surpresa boa e uma má.
Qual querem que conte primeiro? A boa? Então lá vai.
Estava eu a lêr um jornal que sai às quintas-feiras que dá pelo nome de Avante!, e que é o único que em Portugal dá notícias verdadeiras sobre a luta dos trabalhadores, e sobre a acção do único partido político que os defende, o PCP, quando reparei num suplemento sobre os artistas que irão tocar à Festa do Avante!, no primeiro fim de semana de Setembro (dias 4, 5 e 6).
Sei de antemão ser este um dos melhores eventos culturais organizados neste país, único na forma e no conteúdo, que faz as delícias de militantes comunistas, simpatizantes, independentes, apartidários, jovens e velhos, homens, mulheres e crianças, e que durante três dias se vive algo único, que só quem lá vai é que entende que tem de lá voltar sem falta no ano seguinte.
Verifiquei, com agrado, que este ano irá actuar na Festa um cantor de intervenção português, daqueles que, à semelhança de um Zeca Afonso ou de um Adriano Correia de Oliveira, marcaram com a sua voz a luta contra o fascismo, e a certeza de uma liberdade que estava para vir. Verifiquei que o
Samuel cantará na Festa, na nossa Festa... O nosso Samuel cantará para nós na nossa Festa. E isso foi um virar de página!
Foi longo o caminho que demoraram a percorrer os camaradas responsáveis pela selecção de artistas para a Festa. Congratulo-me pela descoberta que fizeram: o Samuel não estava morto, antes continuou a bater-se por ideais difíceis de conjugar com interesses de editoras discográficas!
E não só é importante ouvi-lo, como repudiarmos a pressão das editoras por promover este ou aquele artista, todos menos os comunistas - porque também nessa linha se faz a dominação ideológica.
E esta foi a surpresa boa.
A má... Bem, a má... A Teresa Salgueiro também vai cantar à Festa...
Alguns dirão "pois, pois, gostos não se discutem..."
Eu direi, antes: Não! Discutem-se como qualquer outro tema, pois a formatação do gosto está nas mãos de quem tem o poder. E quem tem o poder - as classes dominantes - também formatam de forma a tornar as pessoas acríticas, confundindo, apresentando-lhes "produtos" culturais desprovidos daquela pequena partícula que os faz pensar por si próprios.
Em suma, a meu ver, a cultura musical ainda é uma das áreas mais delicadas na formação de um homem emancipado e progressista.
Por isso é possível que pessoas com grandes qualidades ao nível do pensamento façam escolhas tão impróprias, como gostar da Teresa Salgueiro.
A Teresa Salgueiro não canta, mia. E mia como um gato sem graça, daqueles que ouvimos ao longe e que nos incomodam, que nos perturbam o café, a paisagem, os ouvidos...
É, para mim, mais um "produto" discográfico que faz ruído.
Fico-me pela felicidade de pensar que a Festa é bem mais que a Teresa, (desculpem, agora é com "z": Tereza) e que posso simplesmente não a ir vêr nem ouvir, e que as más opções - poucas - dos programadores podem sempre transformar-se. Disso é exemplo o convite, este ano, ao Samuel, e longo foi o caminho, repito-o, até perceberem a importância dele na Festa. Pelo seu exemplo de resistência.
Na nossa Festa do Avante!.