“Quando descobrimos aquilo de que somos feitos e a maneira como somos construídos, descobrimos um processo incessante de construção e destruição e apercebemo-nos de que a vida está à mercê desse processo interminável. Tal como os castelos de areia das praias da nossa infância, a vida pode ser levada pela maré.” António Damásio, O Sentimento de Si (1999)
terça-feira, 22 de julho de 2008
Ensino Artístico na AR (2)
Convido-vos a conhecer na íntegra a intervenção certeira e eficaz de Miguel Tiago sobre a escola pública (basta clicar), no entanto, não posso deixar de destacar duas ou três ideias mais concretas que dizem respeito ao EA:
"Nos princípios de Julho, o Governo aponta duas novas machadadas contra o Ensino Artístico Especializado, particularmente contra o Ensino da Música, com a publicação de Despachos do Ministério da Educação que alteram as condições para a matrícula em Escolas de Ensino Artístico e os critérios e formas de contrato de patrocínio com essas instituições. A dois meses do início do novo ano lectivo e após momentos de acesa discussão entre os agentes educativos, o Ministério da Educação e mesmo esta Assembleia, após a intensa mobilização de professores, famílias e estudantes de praticamente todas as escolas públicas do ensino especializado da música do país, o Ministério determina regras que fazem tábua rasa de todos os contributos que foram entregues pelas escolas, pelos alunos, pelos pais, pelos partidos políticos. O Governo quer agora que nenhum estudante com mais de 18 anos possa ingressar no regime supletivo do Ensino Especializado da Música, ao mesmo tempo que obriga os alunos a frequentarem todas as disciplinas dos planos de estudos regular e especializado, aumentando as suas cargas horárias para 44 horas semanais em alguns casos; da mesma forma o Governo impõe regras tão restritivas que se tornarão impeditivas da frequência para muitos, mostrando também assim desconhecimento da diversidade de características de cada situação no que toca ao Ensino Especializado da Música.
Ao mesmo tempo, o Governo anuncia os novos critérios de financiamento do Ensino Especializado da música onde torna clara a sua estratégia de obter pelo financiamento aquilo que não obteve pela discussão democrática. Através de uma comissão o Governo beneficia financeiramente o modelo de escola tipo integrado - que tenha todas as disciplinas no mesmo espaço - ou seja, os colégios privados - e pune as pequenas escolas particulares e a maioria das escolas públicas."
Boa, Miguel Tiago!
Depois disto, espero sinceramente que, finalmente, alguns colegas meus comecem a ter noção de que há apenas um único partido que na hora da verdade está do seu lado, denunciando a verdade que se esconde por trás das acções deste Ministério da Educação.
Só o PCP fez, neste debate na AR, a leitura correcta das consequências destas medidas, que são tão gravosas para os alunos como para os professores do EA.
segunda-feira, 21 de julho de 2008
A Reportagem que a Justine Pediu...
Vamos lá ver se não me esqueço de nada..
Pois.. Entrei na Festa da Alegria por volta da hora de almoço. Estava um sol abrasador que fazia transpirar até as pedras. No pavilhão de Viana do Castelo, no entanto, estava fresquinho. E comeu-se lá muito bem, uns mexilhões e uns rojões, e bebeu-se um vinho verde fresquinho, daqueles de chorar por mais... A tarde foi avançando, entre um abraço aqui, uma cara conhecida ali, um camarada que nos salta ao caminho, e sorrisos, alegria, convívio, conversa sobre tudo um pouco, e eis que ouço o cantar das vozes dos mineiros de Aljustrel, a passar ali na estrada, tão pertinho... Foi um momento mágico. Toda a gente pára tudo o que está a fazer para os ouvir, para os vêr, tão unidos, de braços dados, a cantar com vozes duras, graves, algumas mais agudas, a solo, e depois o grupo todo a responder... E a carga emocional contida naquelas vozes, os rostos de uma definição tal que se podia dizer detalhadamente de que cor eram os olhos de todos eles... E como brilhavam.. E subiram ao palco despertando lágrimas em alguns corações mais sensíveis, segundo ouvi dizer. Não me admira nada. Eu também fiquei num periclitante estado emocional (se me falassem naquele momento, desabava...).
Mas o convívio continuou, com o queijinho e o presunto do pavilhão das Beiras, e mais camaradas conhecidos, mais risos e sorrisos..
Vi por lá uma Quadrilha a tocar cheia de garra no palco, e não faltou a dança de novos e velhos, tudo junto, tudo em festa, como deveria ser, e foi.
E depois ouvi o comício que esteve cheio de gente, cheio de energia.
Ouviram-se palavras certeiras, reveladoras de que há ainda quem se preocupe com este país, e no final dançou-se a Carvalhesa...
Fiz-me outra vez à estrada, ainda com aquelas palavras no pensamento, e com aquele sabor de "soube-me a pouco"...
Em Setembro, na Festa do Avante, espero repetir a injecção de alegria, camaradagem, confiança e vontade de lutar com que saí desta Festa da Alegria.
(E então, Justine? Deu para ter uma ideia??)
Boa semana a todos!
sábado, 19 de julho de 2008
Porque hoje é Sábado...

E porque hoje é sábado... Que tal uma Festa?
E uma festa cheia de Alegria, quem quer?
E uma Festa da Alegria que fica lá bem no norte, em Braga?
Já que hoje não posso ir, vão vocês e digam-me como foi...
E amanhã talvez vá, quem sabe...
Afinal, esta Festa da Alegria é uma festa. E tem alegria.
E eu aprecio quer uma coisa, quer outra!!!
Encontramo-nos por lá?
quinta-feira, 17 de julho de 2008
Robin dos Bosques (ou "Roubam nos postos")???

Para quem acha que os partidos políticos são todos iguais, vão lêr esta notícia da RTP ao seu sítio da internet.
Vão encontrar uma notícia sobre a taxa Robin dos Bosques, o seu impacto na economia, e a força de quem sabe fazer oposição!
E, já agora, quem acha que anda a ser roubado nos postos de gasolina também pode lêr.
É fácil e é barato (só não dá milhões).
terça-feira, 15 de julho de 2008
Ministra da Educa...quê?
Se estiverem com azia não leiam: é um texto um bocado ácido... É sobre a Ministra da Educação...
O asnear de Sua Excelência
Santana Castilho
Professor do Ensino Superior
Um ministro não pode ignorar que a sua exposição pública é diferente da do cidadão comum. Esse elevado grau de sujeição ao escrutínio dos cidadãos cresce com a vulnerabilidade de determinadas pastas e volta a crescer se o titular entra em confronto permanente com os que funcionalmente tutela. Por outro lado, quando a sede das declarações públicas é uma entrevista de fundo, obviamente preparada e meditada, concedida a um "jornal de referência", a dias do debate sobre o Estado da Nação e a encerrar este polémico ano lectivo, as asneiras ganham uma dimensão insuportável. O que a ministra da Educação disse ao Expresso de 5 transacto foi grave. Sem esgotar os factos, que o espaço não o permite, vejamos como Sua Excelência asneou:
1. Finalmente, disse que tinha dado instruções ao GAVE quanto aos exames, depois de ter repetido, vezes sem conta, a sua não intervenção e a independência daquele órgão. Qualquer cidadão sabe que o GAVE depende hierárquica e institucionalmente da ministra. Está no diploma orgânico!
2. "O objectivo dos exames não é comparar", disse. Um aluno meu de avaliação educacional que escrevesse tal disparate chumbava liminarmente. Podemos concordar ou discordar dos exames como instrumento de avaliação ou classificação. Mas avaliar, e por arrastamento classificar, já que se pode avaliar sem classificar mas não se pode classificar sem avaliar, é, fundamentalmente, comparar. Aliás, ela própria, logo que saíram os primeiros resultados, desdobrou-se em comparações infindáveis. Ilegítimas, mas foi o que mais fez. Não se enxergou quando falou ao Expresso!
3. "Disse que em Portugal se chumba muito, que sai caro ao país", afirmaram-lhe os entrevistadores. "Nunca disse isso", respondeu. Estamos loucos, ou foi o que mais lhe ouvimos? Mas nem necessitamos procurar as referências. Sete linhas à frente declarou: "Claro que a repetência nos sai cara. Permanentemente no sistema educativo temos 40% de repetentes. O sistema investe com eles o dobro ou o triplo do que com os outros alunos". Que trapalhada, para além de nem sequer saber fazer contas elementares!
4. Perguntada sobre o papel dos sindicatos respondeu: "... Diria que algumas políticas sindicais prejudicaram a escola pública, como por exemplo o modelo centralizado de concurso". Só nos faltava, depois de nos ter revelado que os Açores não são Portugal, dizer-nos agora que os sindicatos é que definiram as politicas e decretaram o regime dos concursos.
5. "Como é que gostava de ser recordada?", é a vigésima segunda pergunta. A mesma pessoa que acabava de inaugurar uma patética galeria de retratos de todos os ministros que a antecederam, lançar um livro comemorativo de memórias e obviamente tomar a iniciativa de promover a sua própria presença para a posteridade no hall do ministério (esperamos todos que dentro do mais curto espaço de tempo possível), respondeu com este lapidar cinismo: "Não penso nisso. Não trabalho para a memória. Não me faça perguntas dessas que me deixa atrapalhada."
Televisão, esse invento maravilhoso...

Não tenho visto televisão! E... sim, estou viva. Consegui sobreviver.
Da última vez que a liguei foi tal a onda de impropérios e palavras em vernáculo que me ocorreram ao pensamento (em voz alta não pode ser, tenho de pensar nos vizinhos...), que agora pú-la de castigo e ela ficou assim...
Não é fuga à realidade, até porque eu sei que ela existe... É pura falta de vontade de ouvir mentiras e mais mentiras, umas atrás das outras.
domingo, 13 de julho de 2008
Boca
"A boca,
onde o fogo
de um verão
muito antigo
cintila,
a boca espera
(que pode uma boca
esperar
senão outra boca?)
espera o ardor
do vento
para ser ave,
e cantar."
Mas porque razão volto sempre a Eugénio de Andrade? Porquê?
Talvez porque está sol, está calor lá fora...
Ou porque tudo o que é mau me faz ficar inquieta, e a poesia dele me faz acalmar...
Porque em contraponto à mediocridade urge procurar o belo,
para que o nosso coração não endureça...
sábado, 12 de julho de 2008
Feira Medieval

Não, o título do post não é uma ironia à volta daquilo em que Portugal se transformou depois de Sócrates ter sido eleito Primeiro Ministro...
Trata-se mesmo de uma feira medieval que vai ter lugar em Mões, uma aldeia do concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. (Cliquem na frase anterior para ver onde fica... )
Vou passar por lá porque acho piada a estas coisas...
As barraquinhas, a música, as artes de circo, as exposições... e o convívio, as bifanas, o vinho... eh, eh...
Querem vir???
sexta-feira, 11 de julho de 2008
Música para o Fim-de-Semana
4'33'', leia-se 4 minutos e 33 segundos. Assim se chama esta obra de John Cage.
Este compositor americano do Séc. XX. revolucionou o mundo da música ao compor esta obra que é feita apenas de silêncio, um dos parâmetros essenciais em qualquer composição musical.
O resultado, quando executada, é uma criação de grande tensão, quer no palco, quer na audiência, existindo um claro apelo à audição dos sons que compôem o "ruído de fundo".
A ideia de criar perplexidade no público não é nova. Já nos anos 50 do Séc. XX, existiu uma corrente estética teatral que ficou conhecida pelo "Teatro do Pânico" que albergou as mais variadas formas de chocar o público, desde levar vísceras para o palco, até à agressão física do público.... Imagina-se facilmente porque é que foi baptizada com este nome.
Na música também se tem feito as mais variadas experiências, e esta necessidade de inovação já vem de longe: já no século XVI se faziam experiências com o espaço, e com o eco; depois experimentou-se a junção de certos instrumentos; depois experimentou-se a expansão da harmonia, depois a sua anulação, depois a criação de novas escalas, depois a exploração do ritmo, depois a introdução de elementos populares, depois instrumentos electrónicos, e algumas destas inovações acontecem todas ao mesmo tempo, e... e ... podia ficar aqui até amanhã a enumerar a variedade de inovações realizadas.
Em suma, Cage não inventou o silêncio. Inventou um conceito de escutar a música.
E é uma experiência interessante de fazer. Preparem-se:
1-carreguem no play
2-depois da introdução do apresentador do espectáculo, concentrem-se na orquestra, não façam qualquer som, estejam atentos aos sons que vos rodeiam, dentro e fora de casa
3-no meio dos andamentos podem tossir...
Bom Fim de Semana
A verdade é como o azeite

Há muita gente que, quando ouve as notícias não faz o exercício de pensar pela sua própria cabeça. Resultado: assimila toda a informação que lhe é passada exactamente da maneira como alguém (será um ser supremo?) quer que a informação seja entendida.
Se somarmos a isto a forma despudorada como os detentores dos orgãos de comunicação social - fiéis servidores do Capital e das ideias neo-liberais - se comportam... então o cenário é exactamente o retrato real de Portugal neste ano de 2008. Eu diria até que o cenário... é catastrófico!
Querem que a malta ache que o futebol é importante (para alienar as massas)...'Bora fazer horas e horas de transmissões de jogos, análises, comentários, notícias de abertura de telejornal, telenovelas sobre compra e venda de jogadores, etc. Querem que a malte ache que a Manuela Ferreira Leite é a única alternativa ao Sócrates (que é para não repararem noutras forças políticas, como o PCP, por exemplo)... 'Bora fazer todos os dias dezenas de entrevistas, comentários, análises políticas, seguir a mulher para todo o lado...
Querem que a malta pense que a Colômbia e seu presidente Uribe são os heróis por Ingrid Betancourt ter sido libertada às Farc...'Bora dizer mentiras sobre as Farc, ignorar factos, esconder as atrocidades cometidas por Uribe e as suas forças militares, como por exemplo o rapto de Guillermo Rivera Fúquene (de que nos dá conta o Tempo das Cerejas)E é certo que toda esta estratégia atinge o seu objectivo. Ainda que parcialmente. Há para aí uns teimosos que não se deixam enganar...
Eu, por mim, mantenho a convicção que a verdade é como o azeite: vem sempre acima, por isso, acredito que nalgum dia deste futuro que nos aguarda os portugueses vão dizer: BASTA!