quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Entre um poeta e um escritor...

Ontem fez anos que Ary dos Santos morreu. E que Portugal perdeu um excelente poeta. Perdeu também um lutador, um homem progressista, um ser bonito, que deixou o seu traço na história da poesia portuguesa. Porém... Não me lembro de ter ouvido nenhuma notícia sobre isso. Pode ter sido falha minha. Não vi televisão (como sempre), só ouvi rádio. Mas ainda que esteja enganada, posso dizer que, por contraste, me fartei de ouvir falar de um tal de Cristiano Ronaldo. Afinal, estamos em Portugal, e se a pena é mais forte que a espada, a bola é mais forte que a pena.
Mas nem tudo é mau...
Amanhã, se não houver sobressaltos, conto estar presente numa sessão pública de apresentação da edição especial de Quando os Lobos Uivam, agora que passam 50 anos da sua publicação. Esta edição tem um prefácio escrito pela pena de Álvaro Cunhal, e tem ilustrações de João Abel Manta. Esta notícia certamente não será dada nos noticiários, a não ser que o tal Cristiano Ronaldo resolva vir a Viseu comprar um livro de Aquilino Ribeiro. (Tenho dúvidas que o Cristiano Ronaldo saiba quem foi Aquilino Ribeiro... "Em que equipa é qu'ele joga???")
Para concluir, para quem nunca leu
Quando os Lobos Uivam, aqui fica o convite, em forma de excerto retirado do dito...


Engenheiro Streit – O problema eu torno a formular: existe neste concelho uma vasta zona, coisa de 10 a 15 mil hectares, meia desértica, meia maninha, parte escalvada pela erosão ou de pedenal improdutivo, parte mato galego, chamada serra dos milhafres. Na periferia estão enquistadas (…) uma dezena de aldeias, que lhe são, por um terço mais ou menos, feudatárias de estrumes, chamiça ou lenha de queimar ou pastagens. O Estado diz a estas aldeias: tomo-lhes conta de uma porção, 50 a 70 por cento, suponhamos. Onde hoje cresce apenas a rabugem vegetal, (…) dentro de 15 anos têm caruma à farta (…) A essa altura os rebanhos podem voltar a pastar pelas chapadas e devesas. Por outro lado, dentro de vinte, trinta anos, a região, que é pobre, com o trabalho de pinhal, derrubadas, serrações, gemagem, transportes e alimpas, terá aqui uma fonte apreciável de receitas e a ocupação certa de muitos braços.

Justo Rodrigues (presidente da Junta) - Já disse, e voltarei a dizê-lo na Câmara segunda-feira: a serra é nossa e muito nossa. Queremo-la assim, estamos no nosso direito. Desta forma é que nos faz arranjo. Os de Lisboa querem-na coberta de pinhal…? Semeiem pinhal nos parques e jardins onde têm empedrado e relva só pra vista.

Nacomba – Vai haver sangue, não haja dúvida – vai, vai! Se o governo teima em meter aqui a pata, temo-la tramada!

(...)

Dr. Rigoberto – A nação é de todos. A nação tem de ser igual para todos. Se não é igual para todos, é que os dirigentes, que se chamam Estado, se tornaram quadrilha. Se não presta ouvido ao que eu penso e não me deixa pensar como quero, se não deixa liberdade aos meus actos, desde que não prejudiquem o vizinho, tornou-se cárcere. Não, os serranos, mil, cinco mil, dez mil, têm tanto direito a ser respeitados como os restantes senhores da comunidade. Se os sacrificam, cometem uma acção bárbara, e eles estão no direito de se levantar por todos os meios contra tal política.

Louvadeus- Quando esta aldeia estiver mais adiantada, civilizada, tenha luz eléctrica, telefone, escolas dignas, hospital, água potável, (então) fale o estado em levar por diante este número do programa. Até lá, com fome, tamancos de amieiro e barbárie em toda a linha, deixem-nos o que temos. Não nos queiram ditar a vossa lei pela bala e a baioneta.
(Interrompe) Olhe que Nós também não vamos a Lisboa cobiçar os relvados, que lá há, para pastagem das nossas vacas (…) pois podia-se-lhe chamar aproveitar a terra!

Compra samarras – Conho (…) A serra foi dos serranos desde que o mundo é mundo, herdada de pais para filhos. Quem vier para no-la tirar, connosco se há-de haver!


Querem mais? Comprem o livro!
Um agradecimento à minha amiga Filomena pela selecção dos excertos.



Nota de Rodapé: Depois do comentário da Maria fiz uma pequena pesquisa e fiquei mais descansada. Afinal fui eu que ouvi mal, a notícia da rádio falava de um programa especial sobre o Ary dos Santos, para assinalar a sua morte que foi a 18 de Janeiro de 1984...Fiquei mais descansada porque se não se ouviu nada mais sobre isso foi porque... ainda estamos a 16 de Janeiro. Ainda há esperança de ver a sua morte assinalada convenientemente na comunicação social. Antes assim.

7 comentários:

linhadovouga disse...

Lá estarei!

Maria disse...

Eu já comprei o livro. Na Festa do Avante! Soube-me melhor, assim...
É natural que tenham falado do CR, afinal o puto até joga bem e fez-se à custa dele.
Do Ary, que morreu a 18 de Janeiro (uma data bonita) de 1984 não sei se vão falar. Por mim não deixarei de assinalar a data no blogue...

Beijinhos, Sal
(que tudo corra bem amanhã)

Sal disse...

Maria: só depois do teu comentário me apercebi do lapso relativamente à morte de Ary dos Santos. Já reparei o erro numa nota de rodapé. Beijinhos.

Linha do Vouga:
Lá estaremos.
Beijinhos.

Justine disse...

Que seja uma bonita festa!

samuel disse...

Pois então que corra bem!

Abreijos

Fernando Samuel disse...

Sobre o Zé Carlos, sugiro... o próximo Avante - com suplemento e CD...


Um beijo.

utopia das palavras disse...

Boa sugestão a do Samuel! Vou ficar atenta! O livrito também já tenho.

Beijos