domingo, 10 de fevereiro de 2008

A flor que mora em nós



Eu ainda não era nascida quando se deu o 25 de Abril. Mas tenho saudades daquele dia.
Já vos aconteceu? Sentirem saudades de um dia que não viveram, ou de uma paisagem que não visitaram pessoalmente, ou de alguém com quem nunca falaram? Será "saudade" o termo? Não sei. Mas certamente há algo que influencia as minhas emoções por me lembrar deste dia. Porque talvez tenha sido o sonho de muitas das pessoas mais velhas que convivem comigo. Ou porque simplesmente há uma carga emocional muito forte associada a este dia. E as emoções são das coisas mais difíceis de ignorar, mesmo para mentes treinadas. Podem até existir sem que o seu "dono" se aperceba que as tem. É complexo o nosso cérebro.
É engraçado... Toda a gente tem um cérebro. Neste momento em que escrevo, e no momento em que tu lês este post estamos ambos a usar o cérebro. O que me leva a pensar:
Porque é que os portugueses não usam o cérebro mais vezes?! Porque é que não analisam as suas vidas, somam A mais B, e tiram conclusões?...
Mas hoje não quero ficar angustiada (outra vez) com esta questão retórica. Quero só beber o vermelho desta flor, sentir a sua força. Sentir a sua presença. E pensar que aquele dia lá longe também deu frutos, não deu só flores.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Ensino Artístico (3)

Hoje foi dada a conhecer a posição da FENPROF relativamente à reforma do ensino artístico. Temos agora uma forte ajuda na luta que está em curso. Com a Fenprof a questionar o ME, a nossa Milu lá terá que dizer "preto no branco" o que é que pretende fazer concretamente. E já não aceitamos qualquer coisa. Não adianta dar respostas vagas do género "sim... queremos por mais gente a estudar música, e tal..."

Para lêr, clique aqui!

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Ensino Artístico (2)


O Governo mente. Isto já não é novidade.
Mas agora chegou-me a mostarda ao nariz!
A notícia de hoje que podem ver no site da RTP revela o que pretende este Governo. Não se deixem enganar.
O regime Supletivo é o mais requisitado porque nem sempre as crianças descobrem aos 10 anos de idade que querem seguir profissionalmente a profissão de músicos. A escolha profissional decide-se aquando da passagem para o ensino secundário (10º ano). É bom recordar, em abono da verdade, que a esmagadora maioria dos músicos profissionais portugueses frequentou o conservatório em regime supletivo. Este regime de frequência é também o mais indicado para possibilitar a adultos a sua inscrição em escolas especializadas. Ou, porque se é adulto, não se pode estudar no ensino especializado? Até no ensino regular, os adultos que deixaram de estudar podem voltar à escola, e ter a oportunidade de seguir uma carreira nova. Quando digo "adulto" também posso dizer "jovem". Basta ter 15 anos e querer estudar música para já não o poder fazer numa escola especializada. "Porque é que não te lembraste disso quando tinhas 10 anos?!"
É bom dizer, em abono da verdade, que não existe uma rede de escolas públicas de ensino especializado. E que as escolas que fazem uma cobertura mínima do território português são particulares. Mas, contrariamente ao que acontece no ensino regular, muitas delas são de raiz associativa ou de gestão autárquica, não tendo fins lucrativos, e desempenhando um papel social importante. Não são comparáveis a colégios privados, nem devem, por isso, ser tratadas como tal. Eu acho que deveriam nacionalizar uma boa parte das academias e conservatórios privados, senão todos. Porque aí sim, estariam a permitir a centenas de crianças o acesso a este tipo de ensino (uma vez que, neste momento, não tem condições de pagar propinas). Essa medida daria prossecução aos objectivos deste ME: aumentar o número de alunos que frequentam o ensino artístico. Ah, pois. Mas isso precisaria de... investimento! E o Governo não quer gastar dinheiro com o ensino artístico. Por isso é que se esconde atrás de "nobres objectivos" e adopta uma série de medidas que vão lesar alunos e professores, e, no limite, a Cultura deste país. Como a decisão de acabar com as Iniciações.
É bom lembrar que as classes de Iniciação são fundamentais neste ensino. Acabar com elas é comprometer o futuro. Nos conservatórios as crianças já podem aprender um instrumento musical mesmo antes dos 10 anos, i.e, na Iniciação. Se isto for para a frente nunca mais teremos uma Maria João Pires - que começou a tocar piano aos 4 anos - nunca mais teremos fotos como a que vos deixo.

Agora a sério

Pois é.
Afinal, sempre houve carnaval. E lá se viram, um pouco por todo o lado, as costumeiras cenas de cortejos, dançarinas, carros alegóricos, fantasias, etc, etc. O problema é, como diz uma canção de Tom Jobim:

"A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Para fazer a fantasia
De rei, ou de pirata, ou jardineira
E tudo se acabar na quarta-feira."

Porque depois da festa os ricos, em Portugal, continuaram a ser ricos, e os pobres continuaram a ser explorados.

É importante pôr os pés na terra, não baixar os braços, demonstrar que estamos a perceber perfeitamente para onde querem levar este país.
E continuar a luta, continuar sempre.
Mesmo que paremos por um momento para rir, não podemos esquecer todos aqueles que só tem razões para chorar. E é pelos mais fracos, pelos oprimidos, pelos explorados, por todos os trabalhadores deste país que temos de dizer: Basta. Temos que mudar de rumo!

Este país precisa de outra política. Precisa de forte investimento na Saúde (e não de encerramentos compulsivos de serviços), precisa de uma forte aposta na Educação
(e não de perseguições aos professores como se eles fossem a causa de todos os males), precisa de Cultura (e não de especuladores de arte tipo Berardo).

Este país precisa de algo que este Governo não tem: Socialismo.
Mas agora, a sério.

Substituir Gato por Sócrates

Eh, eh, eh...



(Obrigada ao blogue "A Dupla Personalidade")

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Projectos Socráticos

O Sócrates assinou projectos realizados por outros, para a Câmara da Guarda. AAAAhhh. Como é bom viver num país cujo primeiro-ministro é o exemplo de integridade...
O problema não é o indivíduo ser um perfeito imbecil corrupto e assassino. O problema é haver gente que o defende... (Saudades de um ditador?)
É que, essas pessoas que o defendem vão voltar às urnas, arrebanhadas pelos caciques da terra, e vão tentar dar-lhe uma vez mais o poder absoluto que lhe permite, neste momento, estar a aniquilar Portugal. Como é odiosa a falta de cultura...
Entretanto, enviaram-me algumas imagens com os projectos de engenharia do Sr. Sousa.
Não sei se são verdadeiros, mas a julgar pelo mau gosto de alguns, devem ser.
Sentem-se e divirtam-se.

Projectos Socráticos

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Entrudo

Fechou-se a cara do tempo, e choveu. Chouveu muito.
Vimos juntos a água cair, o vento tombar as folhas das árvores, e não saiu o cortejo à rua.
Não foi triste, foi belo.
Porque apesar da máscara no rosto, pude ver o brilho do teu olhar, onde reflectia a clara luz que se estendeu pelas ruas vazias.
Apesar de tudo, não me abandonou o desejo de continuar viva, dia após dia.
E de continuar a lutar, despindo a máscara no dia seguinte.
Porque o cinzento do céu não mora sempre no coração. E também de chuva ele é feito.

Bom Entrudo.
Já que o carnaval ficou por terras de Vera Cruz.

Zeca Afonso pela Jacinta

Música para o fim-de-semana. Já muita gente ousou cantar Zeca Afonso. Mas nunca ninguém o fez assim, como Jacinta faz. Não é só o timbre da voz e a afinação. A qualidade da interpretação vem da vida dos sentimentos, dos contrastes emocionais, próprios da música do Zeca Afonso. Está lá tudo: a raiva, a doçura, a poesia, a tristeza, a dor e a beleza... Para ouvir antes de deitar.



Beijinho grande para ti, Jacinta.
E obrigada por nos trazeres Zeca Afonso.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Ensino Artístico

Eu não avisei?!
Ainda há pouco tempo me referia à comissão designada pelo Governo para estudar a reforma do ensino artístico. Ironicamente, tinha afirmado que esta concluiria exactamente aquilo que o Governo quer, para cumprir uma agenda que nós músicos e professores desconhecemos. Aí estão as mais recentes declarações do Ministério da Educação relativamente ao futuro deste tipo de ensino. Desfeitas as dúvidas, estamos pela primeira vez de que há memória em Portugal, perante a hipótese de extinção do ensino especializado de música.
Já há movimentações por parte de alguns colegas meus no sentido de travar as intenções do Ministério da Educação. Existe uma Petição que recomendo vivamente a todos que assinem. O link está aqui ao lado deste post, caso ainda não tenham visto.
A quem desconhece as particularidades deste tipo de ensino aponto 2 razões fortes para assinar:
1 - Não há uma rede de escolas públicas de ensino especializado, e não acredito que ESTE Governo a construa;
2 - O ensino integrado serve uma minoria de alunos. Se a reforma for para a frente vamos diminuir e não aumentar o número de alunos nas escolas de ensino especializado.

E fico por aqui. Até porque esta matéria promete pano para mangas.

O polícia, a multa e o acidente

Circulando alegremente pela A25 vi-me mandada parar por um carro da Brigada de Trânsito. Após os trâmites habituais, de pedido e verificação dos documentos, passou-se o seguinte diálogo.
Polícia: "Isto é um veículo de mercadorias..."
Eu: "Sim."[é um jipe de dois lugares]
Polícia: "Então e já foi à inspecção?"
Eu: "Não. O Jipe é praticamente novo. Tem dois anos. Não tem de ir à inspecção"
Polícia: "Sabe que os veículos de mercadorias com mais de dois anos tem de ir à inspecção?"
Eu:"..."
Polícia: "Pois é. O veículo é de Dezembro. Já passaram dois anos. Circular sem a inspecção feita dá direito à uma multa no valor de 250 euros."
Eu: "Como???? Não sabia..."
Polícia: "É assim. E é uma multa de pagamento imediato. No caso de não ser paga terei de lhe apreender os documentos do veículo..."
Eu: "250 euros? São 50 contos. Custam muito a ganhar. Custa-me a crer que... "
Polícia: "Pois custa, pois custa a ganhar..."

Entretanto o polícia retirou-se por uns momentos para ir ao seu carro.
Indignada, estupidificada e aparvalhada lá comecei a preencher um cheque, sem acreditar no que me estava a acontecer. Quando ele regressou, voltei à carga:

Eu: "Tanto rigor!!! Acha mesmo que esta fiscalização faz alguma coisa pela melhoria das condições de circulação nas estradas? É a cobrar multas que impedem os acidentes? Enquanto está aqui a multar-me podem estar a haver acidentes nesta estrada. E aí sim, é que vocês são precisos..."
Polícia: "Sim, mas repare que há veículos de transporte de mercadoria que com dois anos já estão muito usados, o que pode criar problemas... Além disso se você tiver um acidente sem a inspecção feita, o seguro....está a vêr, não é? Não paga nada."
Eu: "Ainda assim, há coisas bem mais graves, na estrada, para a polícia andar atrás. Se eu tivesse bebido, ou fosse em excesso de velocidade, aí sim. Estaria a pôr em risco a minha vida e a dos outros. Agora a falta de inspecção num carro com dois anos... Sinceramente."

O polícia retirou-se por mais um bocadinho. Ali fiquei...
Passei o cheque, e entreguei-o ao polícia que tinha voltado entretanto.
Quando me preparava para ir embora ainda reforcei uma vez mais a ideia:
Eu: "Espero que não esteja a decorrer para aí nenhum acidente, enquanto me estavam aqui a multar por uma coisa sem importância..."

Passada aquela interrupção na minha viagem, fiz-me novamente à estrada.
Cerca de um quilómetro à frente deparei-me com um acidente na faixa oposta. Um carro todo espatifado. Pessoas a correr, a fazerem sinal ao trânsito que lá vinha.. Tinha acabado de acontecer. E ainda não tinha chegado a Brigada de Trânsito.
Pudera. Esta estava entretida na caça à multa, ou à gorjeta, não percebi bem. Os polícias faziam falta no local do acidente. Faziam falta na estrada, a patrulhar, a lembrar aos condutores, através da sua presença, que o código da estrada deve ser cumprido, que a velocidade não deve ser excedida...

Assim não.
não há qualquer forma de nos sentirmos seguros, defendidos, protegidos pelas nossas forças de segurança. É que, sem uma acção justa, não há sociedade que resista por muito tempo.

Estou sempre solidária com as acções de luta destes profissionais, quando as há. Também eles são vítimas de políticas que os prejudicam gravemente. Mas cabe aos profissionais de qualquer área fazerem-se respeitar. Com telenovelas como esta acabam por perder a solidariedade de muita gente.