terça-feira, 28 de julho de 2009

Brecht, esse profundo conhecedor da realidade portuguesa

Dificuldade de governar

1

Todos os dias os ministros dizem ao povo
Como é difícil governar. Sem os ministros
O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima.
Nem um pedaço de carvão sairia das minas
Se o chanceler não fosse tão inteligente. Sem o ministro da Propaganda
Mais nenhuma mulher poderia ficar grávida. Sem o ministro da Guerra
Nunca mais haveria guerra. E atrever-se ia a nascer o sol
Sem a autorização do Führer?
Não é nada provável e se o fosse
Ele nasceria por certo fora do lugar.

2

E também difícil, ao que nos é dito,
Dirigir uma fábrica. Sem o patrão
As paredes cairiam e as máquinas encher-se-iam de ferrugem.
Se algures fizessem um arado
Ele nunca chegaria ao campo sem
As palavras avisadas do industrial aos camponeses: quem,
De outro modo, poderia falar-lhes na existência de arados? E que
Seria da propriedade rural sem o proprietário rural?
Não há dúvida nenhuma que se semearia centeio onde já havia batatas.

3

Se governar fosse fácil
Não havia necessidade de espíritos tão esclarecidos como o do Führer.
Se o operário soubesse usar a sua máquina
E se o camponês soubesse distinguir um campo de uma forma para tortas
Não haveria necessidade de patrões nem de proprietários.
E só porque toda a gente é tão estúpida
Que há necessidade de alguns tão inteligentes.

4

Ou será que
Governar só é assim tão difícil porque a exploração e a mentira
São coisas que custam a aprender?

5 comentários:

Membro do Povo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Membro do Povo disse...

Grande e actual verdade que Brecht escreveu. Por muito que se fale noutros tempos, e por mais que se diga "mudam-se os tempos, mudam-se as vontades" há coisas que se mantêm: parecem ser intemporais, refiro-me obviamente à luta de classes (e não estou a citar Marx) e às falhas no processo de democratização do pós 25 de Abril que estão implícitos neste texto de Brecht. Décadas de analfabetismo que a revolução não conseguiu combater contribuíram para o insucesso das cooperativas agricultas e para que não fosse possível o controlo absoluto das fabricas pelos operários, estes factores contribuíram para a aceitação popular do contra-golpe de Novembro, que trouxe de volta patrões e proprietários (que sabiam gerir os meios de produção). Temos assim a educação e a cultura como armas de classe, e temos assim um bom incentivo (do capital) para o seu processo de elitização, e temos também "o" motivo para não permitirmos que tal aconteça: Só um Povo culto e instruído pode dar continuíddade a uma revolução e prosperar em democracia.
Unidos venceremos!

Lúcia disse...

Tudo dito!
Vou andar a reflectir pelo Rosmaninho, e a começar pelas palavras dos outros, essa coisa do voto: as eleições estão à porta mas parece-me que ainda não se deu conta!
Votar em quem e porquê? Vou publicar coisas das quais discordo totalmente ou só em parte. Outras concordarei. Mas reflectir é preciso. Embora me pareça que na silly season não apeteça a ninguém coisas mais alinhavadas!:)
Tudo a arejjjaarrr...
beijocas

duarte disse...

nem mais a mentira elaborada é sinal de um bom grau de inteligencia e de... malvadez.
abraço do vale.

J.S. Teixeira disse...

Isaltino Morais: 7 anos de prisão. Finalmente fez-se justiça! Vejam algumas comparações no blogue O Flamingo.