segunda-feira, 4 de maio de 2009

A Cultura Portuguesa / Música para começar a semana

Eis um post que só interessará a meia dúzia de pessoas. Mostra um tipo a tocar uma "música estranha" em saxofone, num ambiente escuro e misterioso.
Mas não é bem assim... Este é apenas o mote para falar sobre... uma data de coisas....
Para começar, o compositor da obra é nada mais nada menos que Pierre Boulez, uma referência mundial no campo da música erudita, sobretudo na música contemporânea. Um dos melhores maestros de todos os tempos que é simultaneamente um dos melhores compositores do século XX e XXI. É francês, tem 84 anos e ainda é vivo. Compôs esta belíssima peça, cujo nome "Dialog de l'ombre double for sax solo" nos prepara para uma peça em que encontramos um solista em diálogo consigo próprio, com electrónica gravada por si, e outra em tempo real, que, penso, é disparada pelo próprio intérprete em determinados momentos, ao longo do seu percurso quase às escuras pelo palco. Fabuloso. O intérprete, neste caso o genial saxofonista Vincent David estreou a peça no 14º Congresso Mundial de Saxofone, em Julho de 2006, na capital da Eslovénia, Ljublijana.
Não posso deixar de referir que estava lá, naquela sala de concertos, no Cankarjev Dom, naquele dia, neste video, e que, encontrá-lo no youtube, me trouxe uma imensa saudade daquele país e da sua organização. Hão-de repara que as imagens são da RTVSLO (Radio-Televisão da Eslovenia), que não só esteve lá, como filmou todos os concertos, como depois os transmitiu. É de notar que a RTVSLO tem uma Orquestra profissional fantástica, que eu tive a oportunidade de ouvir noutro concerto. Em Ljubljana definem o Cankarjev Dom como um "centro cultural e de congressos". Bem. A dimensão daquele centro cultural põe o CCB num chinelo, só em número de salas de concerto, de condições materiais, de concepção, de programação, de dinâmica com o público. Era um edifício já com alguns anos. Do tempo em que a Eslovénia ainda não se tinha rendido ao sistema capitalista. Mas, curiosamente, o edifício era tão bom que não foi posto abaixo. O mesmo aconteceu com a maioria dos edifícios.
Foram os anos de socialismo daquele país que lhe permitiram ter uma atitude completamente diferente em termos culturais (e julgo que noutros). E isso salta à vista!

Pergunto-me porque é que a RTP não tem uma orquestra profissional, como
acontece noutros países, porque é que não passam música de qualidade, porque é que não filmam concertos com elevado nível artístico? Para passar em horário nobre, e não às três da manhã... Porque é que não dão espaço aos artistas portugueses de outras áreas que não a pimbalhada do costume? Até mesmo música de intervenção... não se vê, não passa. A Cubavision não há dia em que não passe um concerto, a TVGalicia passa música tradicional "a torto e a direito"...
Porque é que temos de estar sempre a levar com um conceito de cultura que é zero, zero ao quadrado, zero ao cubo, comparado com todos os outros países da Europa? Aliás, creio até que não há conceito nenhum. É mais um... "deixar andar"...
Porque somos pequeninos? E a Eslovénia de que tamanho é? E o Luxemburgo?
É porque desde que me lembro de ser "gente" nunca vi - e desconfio que já não vou ver - um investimento sério na Cultura em Portugal.
E tenho muita pena que assim seja. De cada vez que passo as portas do país, e basta-me ir a Espanha, tenho a impressão de viver num país irremediavelmente atolado em esquemas, corrupção, falsidades, xico-espertismos e compadrios.
Resta-me a Luta. E a luta far-se-á! Porque sem ela, então, é que não se consegue mudar este "estado de coisas".
Fim de desabafo.
Se conseguiram chegar até aqui, disfrutem... (apaguem as luzes do local onde estiverem, e... boa audição! Esqueci-me de dizer que é um excerto apenas.)



Dedicado ao CC.

7 comentários:

linhadovouga disse...

Que excelente escolha! Que post inspirado!
Gostei de saber que o Boulez tem 84 anos e ainda é vivo! Espantoso! Que aconteceria se tivesse 84 anos e estivesse morto? :-))

Agora a sério. Muito bom. O VD, aos 32 anos, fez esta versão para saxofone(o original era para clarinete) estreada na Eslovénia em conjunto com o Boulez, aos 81. E fez/fizeram muito bem!
É música fantástica, interpretada de maneira sublime!

linhadovouga disse...

Ah, e quanto ao resto, tens toda a razão.
Em tempos tentou-se que as coisas mudasem por cá também a esse nível. Chamava-se o "25 de Abril". Depois foi a contra-revolução, e na TV também.

Mas a esperança é grande, e a luta também o será.

Bjs

Maria disse...

Há 35 anos eu também pensei que a mudança seria numa determinada direcção, que não esta aonde chegámos. Continuo a acreditar que é possível e que, com a LUTA, lá chegaremos. Um dia. Pode ser no tempo dos netos dos teus netos, mas lá chegaremos...
A minha ignorância musical é grande. Não conhecia este Vincent David nem esta obra. Que é linda. Que apetece ficar a ouvir...
Obrigada, Sal.

Beijinhos
(e gosto deste azulinho de fundo)

Anónimo disse...

As pessoas que mandam na RTP, SIC e, especialmente, TVI (Manuela Moura Guedes e seu velho marido que pinta o cabelo), têm mau gosto. A televisão ainda tentou ser interessante em certas alturas. Quem não se recorda da série "os 4 blindados e o seu cão"? ou "Captain Klauss"? Nessa altura até havia programas dedicados à música clássica. Hoje, a televisão é pouco exigente e os seus gestores só ouvem música clássica nos seus automóveis de luxo quando querem acalmar qualquer dor de cabeça. (jrednunes@gmail.com)

lou disse...

olá! gostaria de deixar uma sugestão para o blog
escute o trabalho deste pianista
www.rodrigoandreiuk.com
ótimo!!

Lúcia disse...

Brigado, miúda. Por tudo isto. Bem resumidco, de resto nas tuas indisfraçáveis etiquetas!
Vou ouvir... já!

beijinhos a tutti

samuel disse...

Belo post!
Infelizmente, a mudança será mais "difícil" que a música do Boulez... mas lá chegaremos! :-)))

Abreijos.