quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Para que serve a Poesia?

Pergunta sem resposta consensual.
É o mesmo que perguntar para que serve a música, ou o amor, ou a vida.
Estamos vivos, é só isso.
E um dia tudo passará, e só fica o que não se acaba.
Se dúvidas tivesse, bastaria regressar à minha infância, para verificar que sempre, sempre estive rodeada de poesia.
Ontem o Cravo de Abril recordou-me Pablo Neruda, no dia em que passavam exactamente 35 anos da sua morte. Fui dali, lê-lo outra vez. Fiquei de novo rendida. Fiquei rendida e derretida! É que... a sua poesia é mesmo linda.
Daquelas que apetece morder.
Ora reparem:


"Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,

e tiritam, azuis, os astros lá ao longe".

O vento da noite gira no céu e canta.



Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Eu amei-a e por vezes ela também me amou.

Em noites como esta tive-a em meus braços.

Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.



Ela amou-me, por vezes eu também a amava.

Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.



Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.

E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.

Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.

A noite está estrelada e ela não está comigo.



Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.

A minha alma não se contenta com havê-la perdido.

Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.

O meu coração procura-a, ela não está comigo.



A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.

Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.

Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.

Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.



De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.

A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.

Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.

É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.



Porque em noites como esta tive-a em meus braços,

a minha alma não se contenta por havê-la perdido.

Embora seja a última dor que ela me causa,

e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo."



(Então? Não ficaram enternecidos?...)

5 comentários:

Maria disse...

Foi exactamente este o poema que postei no dia 23....
... não é lindo? Apetece morder, como dizes....

Beijinhos

Justine disse...

Sim, a poesia alimenta-nos!
Abracinho:))

Lúcia disse...

Enternecedor, doce, sensual - o Neruda desperta todos os nossos sentidos. Toda a sua poesia é um verdadeiro tesouro. Que nos desperta. Até a nosa consciência.
Beijinhos, Sal

Fernando Samuel disse...

Aí está a resposta à tua pergunta; neste caso foi-nos dada Neruda, mas podiam ser milhares de outros...

Um beijo grande.

pedras contra canhões disse...

ora então para que havia de servir a poesia?

deixo o meu link para a minha homenagem à poesia:

http://open-sourcepoetry.blogspot.com

que alguns, como eu, podem apenas limitar-se a contemplá-la.