quinta-feira, 27 de março de 2008

"...porque vivi e quero contar"*

Carta a uma irmã:

Há muito que não te escrevo. Não sei porquê. Mas de cada vez que começo desisto depois da primeira frase. Penso sempre se me irás compreender ou não.
Há muita coisa que deixou de fazer sentido na minha vida. Cresci.
Mas muitas outras coisas são agora mais claras, e começo agora a entender um pouco melhor o mundo à minha volta.
Há uma realidade à minha volta que não me deixa sossegar.
Não consigo passar indiferente por esta vida sem fazer algo que está ao alcance das minhas mãos: lutar. Lutar por um mundo bom, justo, belo. Onde todos se possam sentir bem.
Lutar é um pouco como amar.
Depois de se amar a primeira vez já não somos as mesmas pessoas, e já nada é igual.
Por isso, agora já não posso ficar calada, depois de ter visto o que outros lutaram, depois de ter visto o que outros sofreram. Depois de ver nos seus rostos a face dos homens que não morrem.
Agora já nada é igual.
Transcrevo-te o início de um livro que me ofereceram ontem.
Começa assim:

"Não, o 25 de Abril de 1974 não me apanhou como à grande maioria dos portugueses. Não foi a rádio surpreendentemente transformada em Rádio Liberdade, depois de ter sido Grândola e pontapé de saída;(...)
Na manhã do 25 de Abril de 1974 acordei na cela 44 de Caxias-Norte. Comecei nesse acordar mais um dia de prisão, naquela fase em que parece que nos puseram de salmoura, preparando-nos para interrogatórios, torturas, grandes e duras provas."


Já nada é igual, sabes?

Mana


*Livro do autor Sérgio Ribeiro
1ª Ed., Agosto 1983, Prelo Editora/Editorial Estampa

3 comentários:

Sérgio Ribeiro disse...

Obrigado, Sal. Depois de um "serão", antes de algum necessáio repouso, vim ver a "surpresa". Fiquei... muito contente, reconfortado. Porque senti ter sido útil. Por te ter ajudado a escrever à tua, às tuas, às nossas irmãs.
Obrigado. Espero poder, em breve, talvez contribuir para mais e reconfortantes surpresas.

Mide disse...

E que bom era que a mana pudesse também ler o livro do Sérgio Ribeiro.

GR disse...

Sal,
è exactamente este livro!
É lindo!
Com passagens divertidas. outras porém, muito comoventes.

Incrivel, eu a pensar que te iria emprestar o livro.

Umbj,

GR