sexta-feira, 21 de março de 2008

A professora, a aluna e o telemóvel

Hoje houve várias pessoas que me enviaram por email um video que revela alguns dos mais graves problemas que neste momento se passam no ensino, em Portugal. No video, filmado por um telemóvel em plena sala de aula no Carolina Michaelis, no Porto, vê-se uma professora a retirar um telemóvel a uma aluna, que indevidamente o usou no decurso da aula. A aluna não gosta e luta com a professora a fim de obter o telemóvel de volta.
A certa altura os colegas já intervêm, tentando parar a colega que, com histeria, lá vai torcendo o braço à professora, que não larga o telemóvel. O aluno que filma tudo vai fazendo comentários pouco simpáticos, e parece estar a gostar do "espectáculo", assim como outros alunos, que soltam umas risadas, e contribuem para aumentar a confusão que num minuto se instala na sala.
Que acontecimento lamentável.
Revela vários factos acerca do Portugal contemporâneo:

1- O telemóvel é um objecto tão importante para alguns jovens, que não se importam de sofrer seja que consequência for só para poder dispor dele. Essa dependência é, de resto, um fenómeno já conhecido. Há raparigas que se despem na internet por um carregamento do saldo do cartão do telemóvel.

2- A autoridade dos professores já não existe. É a realidade e não vale a pena disfarçar. Creio que só não há mais problemas porque ainda vai havendo quem, com jeito, vá contornando esse facto, quer professores, quer alunos. A culpa dessa perda de autoridade deve-se, em parte, às políticas educativas que têm vindo a ser produzidas, ano após ano neste país, ridicularizando a figura dos professores, menosprezando a importância que estes tem no sistema de ensino; e, por outro lado, à própria modificação dos contextos sociais em que crescem as crianças, hoje. Refiro-me ao acesso fácil que os jovens tem à internet, ao telemóvel e à televisão. Como nem sempre os pais estão presentes para moderar esse acesso, os jovens crescem a ver tudo, a fazer tudo, a saber tudo antes de terem maturidade para assimilar certas coisas.

3- "Decência" e "Respeito" são palavras que sairam do vocabulário de muitas famílias. E a escola não basta para as incutir na educação dos jovens. Se os próprios pais não insistirem, se não derem o exemplo, se não demonstrarem o que é certo e errado, os seus filhos nunca aprenderão a viver em sociedade. Vão, pelo contrário, achar que podem fazer seja o que for, que sairão impunes.

Feito este balanço, posso adiantar duas coisas mais:

1- A sociedade capitalista em que vivemos quer que as pessoas trabalhem sempre mais horas, com horários cada vez mais flexíveis, quer que as pessoas se endividem aos bancos (que é para não pararem de trabalhar), quer que tenham máxima disponibilidade (e quem não a tiver vai para o desemprego), quer que haja uma bolsa de desempregados para poder manter os trabalhadores debaixo do chicote, quer que os trabalhadores tenham medo, que não se sindicalizem, que aceitem contratos individuais de trabalho, para ficar cada vez mais frágeis;

2- A sociedade capitalista quer ainda que os jovens consumam, de preferência aquilo que os faz mais estúpidos e dependentes, quer que os jovens não pensem, que é para não questionarem muito, para poderem ser controlados, e até a irreverência é controlada, há produtos para os irreverentes, desde comida a música. Os jovens controlados de hoje são os dependentes de amanhã, assim espera o grande capital.


Pois é.
Tanta coisa escondida por trás de um video.
Portugal está cada vez mais a parecer-se com os Estados Unidos da America. Se aquela rapariga tivesse uma arma tinha, certamente, disparado sobre a professora.
E então, lá estariam todos preocupados com a violência. E seriam feitos muitos debates e programas de televisão para falar sobre o assunto...

9 comentários:

poesianopopular disse...

Grande texto camarada,
nele dizes quase tudo
sobre esta política errada
que mais parece o Entrudo

Pais, que não sabem sê-lo;
filhos pouco respeitadores
políticos que podem parecê-lo
mas não passam de impostores

Que vivem enganando o povo,
e se reclamam do (socialismo)
prometem-nos um mundo novo,
e empurram-nos para o abismo

A realidade está á vista
graças ao Partido da rosa
Que se diz ser (socialista)
por isso asino a tua prosa.

Bjo
A luta continua!
José Manangão

GR disse...

Este vídeo chocou muita gente! Contudo, já não há ninguém que não conheça uma “história” bem pior, muito mais grave, ou com os encarregados de educação, ou alunos e professores.
Algum aluno lhe é dado o punição?
- Expulsão de todas as escolas públicas é o mínimo que pode exigir à aluna de 15 anos.
- Durante um período de tempo a jovem iria para um colégio/correcção.
Toda a turma seria suspensa, não concluindo (este ano) o ano lectivo.
- Indemnização do encarregado de educação, ao professor (60 anos), não tendo dinheiro iria para a prisão.
Tenho a certeza que para a próxima vez o aluno meditava antes de actuar.
Os professores começariam a ser mais respeitados.
Assim, como é possível respeitar a autoridade/professores. Depois ouvimos histórias como uma professora do concelho de Ovar; foi para o Hospital com hematomas em todo o corpo e com grande parte da cabeça sem cabelo. Teve a coragem de fazer uma exposição nas instituições competentes, colocar nos jornais e…perder a questão.
Uma outra foi falar com o professor com uma faca, a mãe da criancinha. Após a chegada da políci, esta também o insultou (com todos os palavrões usados no norte). Conclusão, o polícia calou-se, o professor ficou com o caso arquivado e a mãe continua a gozar!
Assim, é impossível ter respeito pela classe, se estes próprios calam por causa do medo do ministério da educação.
Porque a culpa é mesmo do governo e do ministério da educação e não só deste.
GR

poesianopopular disse...

Sal
desculpa mas não (asino)assino OK
Bjo
josé Manangão

sr disse...

A criação de necessidades até à obsessão, à carência, à overdose. Como lidar com "isto"? Indo ao fundo das questões, atacar no osso, e - também - ter coragem na espuma dos dias, na relação próxima com os próximos. Quantos pais e mães não encontram no que a TV lhes sugere como prenda para os filhos a "solução", até porque a pressão é muitae ... os outros têm!
Vivemos um tempo (histórico) complicado.
Só há que lutar, mas tentando perceber o que se passa, porquê, quais as causas.
Esta tua "ajuda", sem ser reacção ao meu post no "anónimo" toca em pontos que a análise do economista (marxista, claro) tem muito que ponderar.
Boas amendoas!

Antuã disse...

Estes são os filhos dos vários Albinos Almeida e das várias Lurdes Rodrigues. ou me engano muito ou ainda a aluna vai ser comendadora.

samuel disse...

O eduquês é todo muito lindo, o ensino lúdico sem sacrifícios também, mas os resultados estão à vista.
Como é que se chegou aqui é que é a "pergunta para o milhão de euros", se isto fosse um concurso de televisão. Como não é... seria bom que se fizesse alguma coisa, de preferência depressa e desta vez, bem.

Abreijos

Maria disse...

Excelente texto, Sal.
Há coisas que eu não entendo. Ou não tenho capacidade para entender...
Hoje o video continua a passar na tv, dizem que a aluna se arrependeu etc. e tal e que vai ser expulsa da Escola, e eu continuo chocada. E os outros alunos? Todos os que se riram durante a agressão e insultaram a professora? Serão os próximos agressores?

Beijo

OUTONO disse...

Este é o retrato de um Portugal.
A cena, demonstra bem, as políticas educacionais, laborais,sociais e outros "ais" deste país que tem TUDO para vingar...menos vontade de vingar.
Liberdade...Tão linda!
Libertinagem...Tão feia!
Concordo com as tuas palavras. Principalmente no resumo, em que se refere....tanta coisa escondida!
É urgente actuar. Seguramente muitos culpados escaparão... Seguramente muitos inocentes pagarão ...Mas é urgente actuar.

GR disse...

Mãe teve de pagar por agressão do filho
Tribunal espanhol determinou uma multa de 14 mil euros

Um tribunal da cidade espanhola de Sevilha condenou uma mãe a pagar uma multa de 14 mil euros, depois do seu filho ter agredido um colega na escola.

Segundo noticia a edição electrónica do jornal El País, o tribunal considerou que foi o «laxismo e tolerância» maternos que permitiram a atitude do menor.

O dinheiro desta multa servirá também para custear os tratamentos dentários que a criança agredida necessita.

A mãe do agressor ainda terá tentado responsabilizar a escola, alegando que esta não tomou conta de forma eficaz dos alunos. Mas o tribunal não acolheu como válidos estes argumentos, considerando que «a brutalidade e a intensidade» das agressões são reflexo de «uma falta de fornecimento ou assimilação de educação e moderação».

Portugal Diário 22-03-08

Se fosse prof.era multada também!

GR