sábado, 17 de maio de 2008

As pessoas...

Hoje de manhã houve 13 pessoas que não me responderam depois de eu lhes ter dito "Bom Dia".
Outras 4 olharam para mim e quando viram o que tinha nas mãos mudaram de direcção.
Houve uma que me disse para ir trabalhar.
E uma grande porcentagem respondeu "Não quero nada disso".
Houve outras, em menor quantidade, é certo, que foram correctas, responderam com educação, e, imagine-se, até com um sorriso.
Algumas compraram o que trazia para vender, juntamente com mais cinco camaradas.
Outras não compraram, mas, pelo menos, não foram insultuosas.
Quando desempenho uma simples função dentro do partido a que pertenço, faço-o com o maior sentido de missão. E já não é a primeira, nem segunda vez que vou para o centro da cidade onde resido vender o jornal "Avante!". Porém, de todas as vezes que o faço, sinto que fico a conhecer melhor este nosso mundo, habitado por todo o tipo de pessoas.
Mas algumas pessoas são, efectivamente, caricaturas de seres humanos. Tal é a podridão em que mergulharam. Tal o medo do cacique (porque no local onde resido há uma estranha tradição de obedecer ao senhor da terra).
Vivo, como já calcularam, numa cidade de direita pura e dura. Nesta cidade não é fácil levar para a frente uma luta, por mais justa que seja. Por mais consensual que seja.
Mas faz-me /faz-nos bem contactarmos com este tipo de pessoas, este tipo de cidades, este tipo de mentalidades.
Só nos faz ficar mais motivados para a luta. Só percebemos ainda com maior clareza, se ela faltasse, que há muito a fazer para defender os ideais de Abril. A nossa liberdade, pessoal e colectiva. A nossa democracia, sem "senhores" a pensar, ou a votar por nós.
Nesta cidade é um desafio permanente ser-se comunista. Todos os dias sou posta à prova. "Até onde és capaz de aguentar?" São os colegas de trabalho que boicotam as nossas pequenas, mas certeiras actividades. São as múltiplas lutas que precisamos de travar (e são tão poucas as mãos para trabalhar...). São estas pessoas que encontramos, com quem nos cruzamos, que nos olham, que nos julgam, e que já sabem tudo sobre nós e sobre o comunismo...
Mas há sempre forças, porque não estou só nesta batalha. Há sempre energia, porque sei que defendo o que é certo.
Há sempre coragem, porque se eu não a tiver, quem mudará o mundo?
Por isso, para a próxima lá estarei outra vez no Rossio.
"Bom dia. Quer comprar o jornal Avante?"

16 comentários:

samuel disse...

Bom dia!
Obrigado, beijinho e bom trabalho!
(está bom assim?)

Pena que as minhas inocentes memórias de infância, de uma Viseu toda feita de coisas muito bonitas, aventuras na "cava", sustos com aquelas carantonhas que espreitam do alto de uma casa antiga, a fantástica fonte no cimo da Emídio Navarro, as fúrias do pacífico Pavia, o bulício e mistério da Rua Direita, que afinal só é "direita" por ser ligação directa entre duas portas da cidade de que não me lembra o nome, os patos negros do Fontelo, os cisnes do Parque da Cidade... e o Rossio, onde uma tal de Sal viria a vender o Avante (mesmo contra a má-cara de alguns), coisa que ninguém pensaria possível em 1958.

Abreijo

Sérgio Ribeiro disse...

Sal, obrigado pela tua crónica de uma tarefa. Está sentida, vivida, bem contada, pedagógica, certeira e estimulante.
E prenhe das (únicas) certezas que há que ter. As que nos fazem ser como somos.

Um abraço camarada

Sérgio Ribeiro disse...

É pá, ó Samuel, estavas a escrever ao mesmo tempo que eu! E chegaste um minuto antes. Por pouco não nos atropelámos. Vou ao teu blog ver se te apanho.
Obrigado pela hospitalidade, Sal!

poesianopopular disse...

A quem o dizes camarada, eu que toda a minha vida laboral foi em salões de Cabeleireiro, desde os 13 anos aos 58, sei bem o que é engolir sapos para sobreviver com alguma dignidade, hoje felizmente sou livre, de não engolir mais sapos.
Obrigado camarada pelo teu trabalho revolucionário aí no (CAVAQUISTÂO)onde ainda existem mulheres e homens que metem medo, por enquanto!
Bjos
Manangão

samuel disse...

O meu comentário anterior, que começou com "pena que as minhas inocentes memórias...", depois foi por aí fora e não acabou com algo como "...estejam tão distantes da realidade de hoje."
Se escrevo um texto maior, já não me lembro do que disse a começar... sou uma pessoa idosa!

Abreijo.

Justine disse...

Mundo preconceituoso e mesquinho, este nosso!
Um beijo de reconhecimento e força

Anónimo disse...

Sal,vou tomar a liberdade de te contar o que me aconteceu esta semana e que me fez perceber, com mais clareza, a importância do "Avante!".
Estou a ajudar uns camaradas na preparação de uma exposição sobre Ferreira de Castro e a "Lã e a Neve"(o livro onde ele trata as lutas dos operários têxteis da Covilhã). Fui procurar notícias sobre as greves de 1946 nos jornais "República" e "D.de Lisboa". Não encontrei nada. Só num jornal as encontrei... o "Avante". Feito clandestinamente,dentro do nosso país, com imensas dificuldades e sacrifícios, mas, se não fosse ele,todos os acontecimentos que deram lugar à greve, o seu desenrolar, os oitenta e oito trabalhadores que foram presos e tudo o mais, era como se nunca tivessem existido.

Um abraço

Campaniça

Maria disse...

Conheço bem a cidade onde vives, já andei por aí a fazer trabalho eleitoral, sei o que é preciso andar por caminhos mais que estreitos para chegar a um camarada ou um amigo. Para que faça parte de uma lista. É um trabalho cansativo, mas dos mais estimulantes que já fiz. Porque depois temos resultados!!!!!
Nas últimas autárquicas Sortelha foi um desses exemplos.
(e estou preparada para as próximas, se for preciso.)

Um beijo, Sal

amigona avó e a neta princesa disse...

Os meus parabéns camarada! Bom domingo...

o castendo disse...

Bom dia,
Além do mais machismo serôdio!
Em hora e meia, na mesma acção, não me mandaram nenhuma boca. Apesar de estar permanentemente a apregoar o «Avante!». E creio que ao João também não.Será por ser homem?

Sal disse...

Castendo:

Pode ser por isso. Também pode ser pelo facto de serem um pouco mais velhos que eu.lol. Acho que as pessoas se intimidam mais a mandar "bocas" a homens de barba rija. (ou bigode rijo, no caso do João). Ainda levam algum sopapo... Já uma mulher não intimida tanto.
Pode ser machismo, realmente.

Beijinhos a todos.

Lúcia disse...

Viseu?!!! Bem, Sal, razão tens tu em ficar com pulga atrás da orelha...nós, realmente estamos mais perto do que imaginei...
Quanto ao teu post... olha . Tenho muito para dizer, mas nem cabe aqui tudo. Pois andar na rua diz-nos muito sobre a condição humana. Andar na rua em Viseu diz-nos...muitíssimo. Mas andar na rua em Viseu a vender o Avante... É estar a pedi-las!:)
Xi

Lúcia disse...

Claro que há pouco comecei a sério e acabei a brincar! Mas queria dizer que é da tenecidade com que te reges que precisamos. Que não te cansem os braços, Sal! Porque lutar é o caminho.

Antuã disse...

Força sal. Há sítios bem mais pacíficos para o PCP em que os camaradas não são tão audazes como vós. nem é preciso sair do litoral do distrito de Aveiro.

GR disse...

Chego tarde, mas não posso deixar de te dizer que tenho muito orgulho em ti camarada.
Enquanto houver jovens como tu, corajosas e lutadoras, Abril está Vivo e Vencerá.
Não é fácil como descreves, Há sempre alguém que resiste.
Sal, estás na linha da frente.
A Luta é o Caminho!

Um bj solidário, amiga e camarada,

GR

Fernando Samuel disse...

Comovi-me (muito, muito...) com a tua crónica: obrigado!