sábado, 2 de fevereiro de 2008

O polícia, a multa e o acidente

Circulando alegremente pela A25 vi-me mandada parar por um carro da Brigada de Trânsito. Após os trâmites habituais, de pedido e verificação dos documentos, passou-se o seguinte diálogo.
Polícia: "Isto é um veículo de mercadorias..."
Eu: "Sim."[é um jipe de dois lugares]
Polícia: "Então e já foi à inspecção?"
Eu: "Não. O Jipe é praticamente novo. Tem dois anos. Não tem de ir à inspecção"
Polícia: "Sabe que os veículos de mercadorias com mais de dois anos tem de ir à inspecção?"
Eu:"..."
Polícia: "Pois é. O veículo é de Dezembro. Já passaram dois anos. Circular sem a inspecção feita dá direito à uma multa no valor de 250 euros."
Eu: "Como???? Não sabia..."
Polícia: "É assim. E é uma multa de pagamento imediato. No caso de não ser paga terei de lhe apreender os documentos do veículo..."
Eu: "250 euros? São 50 contos. Custam muito a ganhar. Custa-me a crer que... "
Polícia: "Pois custa, pois custa a ganhar..."

Entretanto o polícia retirou-se por uns momentos para ir ao seu carro.
Indignada, estupidificada e aparvalhada lá comecei a preencher um cheque, sem acreditar no que me estava a acontecer. Quando ele regressou, voltei à carga:

Eu: "Tanto rigor!!! Acha mesmo que esta fiscalização faz alguma coisa pela melhoria das condições de circulação nas estradas? É a cobrar multas que impedem os acidentes? Enquanto está aqui a multar-me podem estar a haver acidentes nesta estrada. E aí sim, é que vocês são precisos..."
Polícia: "Sim, mas repare que há veículos de transporte de mercadoria que com dois anos já estão muito usados, o que pode criar problemas... Além disso se você tiver um acidente sem a inspecção feita, o seguro....está a vêr, não é? Não paga nada."
Eu: "Ainda assim, há coisas bem mais graves, na estrada, para a polícia andar atrás. Se eu tivesse bebido, ou fosse em excesso de velocidade, aí sim. Estaria a pôr em risco a minha vida e a dos outros. Agora a falta de inspecção num carro com dois anos... Sinceramente."

O polícia retirou-se por mais um bocadinho. Ali fiquei...
Passei o cheque, e entreguei-o ao polícia que tinha voltado entretanto.
Quando me preparava para ir embora ainda reforcei uma vez mais a ideia:
Eu: "Espero que não esteja a decorrer para aí nenhum acidente, enquanto me estavam aqui a multar por uma coisa sem importância..."

Passada aquela interrupção na minha viagem, fiz-me novamente à estrada.
Cerca de um quilómetro à frente deparei-me com um acidente na faixa oposta. Um carro todo espatifado. Pessoas a correr, a fazerem sinal ao trânsito que lá vinha.. Tinha acabado de acontecer. E ainda não tinha chegado a Brigada de Trânsito.
Pudera. Esta estava entretida na caça à multa, ou à gorjeta, não percebi bem. Os polícias faziam falta no local do acidente. Faziam falta na estrada, a patrulhar, a lembrar aos condutores, através da sua presença, que o código da estrada deve ser cumprido, que a velocidade não deve ser excedida...

Assim não.
não há qualquer forma de nos sentirmos seguros, defendidos, protegidos pelas nossas forças de segurança. É que, sem uma acção justa, não há sociedade que resista por muito tempo.

Estou sempre solidária com as acções de luta destes profissionais, quando as há. Também eles são vítimas de políticas que os prejudicam gravemente. Mas cabe aos profissionais de qualquer área fazerem-se respeitar. Com telenovelas como esta acabam por perder a solidariedade de muita gente.

5 comentários:

campaniça disse...

Na terra onde vivo um polícia foi chamado ao chefe e este perguntou-lhe " que se passa consigo? Você apresenta muito menos multas que os seus colegas. Vê lá o que anda a fazer porque isto assim não pode continuar". É que eles trabalham à percentagem. Se calhar a
assistência a acidentes não dá "guito".

No entanto, também estou solidária com as lutas que eles travam. São questões diferentes.

Mide disse...

Parace óbvio que se estavam a fazer à gorjeta. Para a maior parte dos frequentadores da estrada, 250 euros custam mesmo a ganhar. Pagando um metade directamente aos soldados a coisa ficaria, certamente, por aí. Parece que estes casos são, infelizmente, comuns.
Mas, para todos os efeitos, os responsáveis últimos não são estes soldados, mas os sucessivos governos. Más (ridícluas) condições salariais predispoem para "complementos salariais". Aumentos da idade da reforma num país de reformas rápidas e milionárias também desencorajam a persistência e a integridade. E depois há os exemplos, cada vez mais flagrantes, de que quanto maior a
mentira, a desnostidade e sacanice geral, maiores as hipóteses de sucesso. Exemplos provenientes do próprio Governo, por exemplo. Face a isto, é difícil esperar que todos os trabalhadores das forças de segurança se mantenham firmes e íntegros. De cada vez que o Governo aprova uma nova medida nefasta dá mais um abanão nessa firmeza e nessa integridade. Mas tal não impede que os trabalhadores das forças de segurança procurem essas firmeza e integridade. Ganham a confiança e a solidariedade da população.
E, de qualquer maneira, não podemos acabar com a nossa própria exploração explorando. Explorando aqueles que, ainda que momentaneamente, estão em situação de fragiliade - como aconteceu com a autora do blog.

au loin disse...

250 euros é mt dinheiro
"...nao tenho qualquer possibilidade de pagar aqui e agora esta multa!"
esqueeci o caderno de cheques e n tenho liquido suficiente...
que faria o policia neste caso???

:-(((

Sal disse...

Olá Au loin.
A polícia tem uma maquineta de multibanco o carro da Brigada de Transito, se eu preferisse pagar com cartão. E se eu não pagasse de todo ficavam-me com os documentos do veículo, logo, eu não poderia circular a partir dali. Teria de chamar alguém amigo para me ir buscar, e o carro seria rebocado pela polícia. Mais tarde teria de pagar não só a multa, como também o serviço de reboque.
Isto tem cabimento?
Por acaso eu podia pagar. Com esforço, mas podia. E aqueles que não podem?

Pedro disse...

Concordo inteiramente consigo, a caça à multa (e à percentagem) leva estes policias "trabalhadores" a orientarem-se.
Também fui multado provavelmente pelo mesmo policia na A25, junto ao nó de Mangualde, e apenas tinha passado um mês da 1.ª inspecção.
Disse-lhe que aquilo é roubo!
A partir daquele momento a brigada de transito não passam de um maus profissionaism viciados por conseguirem a sua percentagem para meter ao bolso.